11.8.19

Riqueza Nacional

A renda e o bem estar dos residentes de um país dependem de sua riqueza, ou seja, da sua dotação de recursos produtivos.

Estimativas da riqueza nacional para 141 países estão disponíveis no relatório The Changing Wealth of Nations, publicado pelo Banco Mundial. 

Na definição do Banco Mundial, a riqueza nacional possui quatro componentes:

·         capital natural: óleo, gás natural e carvão; minerais; lavouras e pastagens; florestas; reservas naturais (áreas terrestres protegidas)

·         capital produzido: estruturas e edifícios; máquinas e equipamentos; terrenos urbanos residenciais e não residenciais

·         capital humano: conhecimento, experiência e esforço dos integrantes da força de trabalho

·         ativo externo líquido, que equivale à posição de investimento internacional do país


Capital Natural

O valor dos recursos que compõem o estoque de capital natural de um país é estimado como o valor presente do fluxo de renda esperado do recurso, com a renda sendo dada pela diferença entre o valor da produção e o custo dos insumos, incluídos neste custo a remuneração do trabalho e o retorno “normal” do capital.

O fluxo de renda esperado pode ser finito ou infinito, dependendo de o recurso ser exaurível ou renovável, e é obtido a partir da suposição de que a renda anual futura do recurso será igual à renda observada em anos recentes.

O valor presente deste fluxo de renda esperado é dado pela aplicação de uma taxa de desconto de 4% a.a., correspondente à taxa observada de retorno real de longo prazo (100 anos ou mais) dos ativos financeiros.

Capital Humano

O estoque de capital humano é calculado de forma similar, sendo dado pelo valor presente do fluxo esperado de rendas do trabalho, ao longo do tempo de vida da pessoa.

Supõe-se que a renda do trabalho aumenta a uma taxa constante de 2,5% a.a., devido ao aumento da produtividade, com o fluxo de renda esperado sendo, então, descontado à mesma taxa constante de 4% a.a., de modo que a taxa de desconto efetiva é de 1,5% a.a.

Capital Produzido

O valor do estoque de estruturas e edifícios e de máquinas e equipamentos é obtido pelo método do inventário perpétuo, enquanto o valor dos terrenos urbanos é estimado como uma proporção fixa, equivalente a 24%, do total do capital produzido.


Como mostra a tabela abaixo, o capital natural responde por uma parcela maior (20%) da riqueza nacional do Brasil, em comparação com os países de alta renda da OCDE (apenas 3%), com a participação do capital produzido (17%) e, em menor medida, também do capital humano (65%), em contrapartida, sendo mais reduzida no Brasil do que naqueles países.


                                       Riqueza por tipo de ativo - 2014 (% do total)

Tipo de ativo                             Mundo    Países de renda      Países de alta            Brasil
                                                                    média alta              renda da OCDE

Capital Natural                                9                  17                               3                         20
Capital Produzido                           27                 25                              28                        17
Capital Humano                              64                 58                             70                         65
Ativo Externo Líquido                      0                   0                               -1                         -2

Total                                              100               100                            100                      100

8.8.19

Senhoriagem



Senhoriagem é a diferença entre o valor de face de uma nota de real e o seu custo de produção. Corresponde, assim, ao lucro que o governo obtém com a emissão de moeda.

A figura acima mostra que o custo de produzir mil notas de 50 reais, com um valor de face total de R$ 50 mil, era de apenas R$ 62,75, em 2002, com a diferença constituindo lucro para o Banco Central e, portanto, receita para o governo.

Esta página traz informações sobre o custo de produção das notas e moedas de dólares americanos, em 2019. Assim, por exemplo, para produzir uma nota de 100 dólares, o custo incorrido pelo Federal Reserve é de apenas 14,02 centavos de dólar.

6.8.19

Atraso da renda per capita do Brasil

Uma maneira simples de avaliar o atraso de um país em termos de renda per capita é mostrar com que antecedência países desenvolvidos alcançaram o nível de renda corrente do país de interesse.

Dados da MPD 2018 indicam que a renda per capita do Brasil em 2015 equivalia à renda per capita dos Estados Unidos em 1950, ou seja, em relação aos Estados Unidos, o atraso brasileiro é de 65 anos.

O ano de 2015 foi escolhido para a comparação porque é o ano em que a renda per capita do Brasil alcança o valor mais elevado na série CGDPPC daquela base de dados, a suposição, neste caso, sendo que a queda da renda per capita brasileira ocorrida nos anos seguintes se deve a choques de natureza temporária, cujo efeito se dissipará completamente, no longo prazo.


PIB per capita do Brasil em 2015 era igual ao PIB per capita

      dos Estados Unidos em 1950/51

      da França em 1968/69

      da Alemanha em 1968/69

      do Reino Unido em 1969/70

      do Japão em 1972/73

      da Itália em 1975/76

      da Espanha em 1988/89

      de Portugal em 1992/93 

5.8.19

Como ensinar Introdução a Economia


De acordo com Justin Wolfers, mostrando para os estudantes que tanto a microeconomia como a macroeconomia proporcionam ferramentas de análise de grande valia para a tomada de decisões de natureza pessoal, profissional e patrimonial, ou seja, são úteis mesmo para quem não pretende seguir a carreira de economista.

Leia o artigo e assista o vídeo.

3.8.19

Dilemas da política monetária sob governos populistas


Raghuran Rajan explica, neste artigo, o conundrum (para cunhar uma expressão) enfrentado pelos Bancos Centrais sob governos populistas.

·         A incerteza gerada pelas ações heterodoxas e imprevisíveis de um governo populista tem um efeito deflacionário.

·         Como o mandato do Banco Central requer um afrouxamento da política monetária quando o crescimento desacelera, mesmo um Banco Central autônomo se torna efetivamente um seguidor do governo populista.

·         Isso, por sua vez, pode estimular o governo a adotar políticas ainda mais arriscadas, na suposição de que o Banco Central resgatará a economia, se necessário.

·         Como a capacidade do Banco Central de compensar erros de política é, na verdade, limitada, a situação da economia pode se tornar bastante problemática, com o BC sendo, então, acusado de não fazer o suficiente.

28.7.19

Uso de "big data" no desenho de políticas sociais


As dezoito aulas do curso “Using big data to solve economic and social problems”, lecionado por Raj Chetty, na Universidade Harvard, estão disponíveis em vídeo aqui. Examinando temas como igualdade de oportunidade, educação, saúde, meio ambiente e justiça criminal, entre outros, o curso proporciona uma introdução aos métodos estatísticos básicos e às técnicas de análise de dados utilizadas na pesquisa em economia.

Em artigo, publicado em The New York Times, Chetty argumenta que, com a crescente disponibilidade de dados e a aplicação dos métodos e técnicas discutidas no curso mencionado acima, a economia tem se tornado cada vez mais uma disciplina essencialmente empírica e científica.

27.7.19

Crescimento econômico no Brasil desde 1850

A versão mais recente das estatísticas históricas sobre PIB per capita publicadas pelo Projeto Maddison, a MPD 2018, propôs uma revisão bastante significativa das estimativas de renda relativa para a América Latina e o Brasil*, nos últimos 170 anos.

De acordo com a MPD 2018, o PIB per capita do Brasil, em 1850, já estava reduzido a apenas 21% do PIB per capita dos Estados Unidos. No último quarto do século XIX, a divergência entre as rendas brasileira e americana se acentuou, como mostra o gráfico acima, com a razão entre elas permanecendo quase sempre abaixo de 10% durante a primeira metade do século XX.

A partir de 1945, com a aceleração do crescimento econômico no Brasil, este hiato se reduziu - o PIB per capita brasileiro se elevou a cerca de 17% do americano no anos 70 e se manteve, com oscilações, próximo desse nível durante as “décadas perdidas”.

Durante a expansão Lula, entre 2004 e 2010, a razão entre as rendas per capita do Brasil e Estados Unidos chegou a 29%, vindo, entretanto, a se reduzir, no período mais recente, em consequência da recessão brasileira de 2014-16.

* A respeito das mudanças metodológicas que motivaram tal revisão, consultar esta postagem.



13.7.19

Crescimento do PIB per capita no Brasil

"Entre 1985 e 2018, nosso PIB per capita cresceu à taxa média de 0,9% ao ano. Nesse mesmo período, observou-se uma alta média de 3,4% a.a. no PIB per capita dos países em desenvolvimento, de 1,6% a.a. no dos países ricos e de 1,2% a.a. no da América Latina, excluindo o Brasil. Caminhamos para deixar de ser um país de renda média e voltar a ser um país pobre" (Armando Castelar Pinheiro, Valor - 05/0/2019).

"Achatamento" da curva de Phillips

Desde 2010, a taxa de inflação nos Estados Unidos, medida pelo deflator das despesas de consumo pessoal, se situou quase sempre abaixo da meta de 2%, estabelecida pelo Federal Reserve (FED), apesar da acentuada redução da taxa de desemprego, de 10%, em 2010, para menos de 4%, em 2019, conforme mostra o gráfico abaixo.


Robert Barro, em artigo publicado pelo Project Syndicate, considera difícil compreender como o FED conseguiu manter a taxa de inflação neste intervalo de 1% - 2%, na última década, apenas manejando a federal funds rate (a taxa de juros básica americana, análoga à SELIC brasileira), um instrumento que a evidência empírica sugere ser fraco e ter efeitos bastante retardados sobre a inflação.

Segundo Barro, a explicação mais frequente, embora não muito satisfatória, para este enigma é que os agentes econômicos acreditam que, se a inflação se elevar substancialmente acima do intervalo 1,5% - 2%, o FED reagirá elevando dramaticamente a taxa de juros nominal e, da mesma forma, cortará a taxa de juros nominal (ou usará políticas monetárias alternativas, se a taxa de juros nominal chegar ao seu piso de zero), também de forma agressiva, quando a inflação cair bem abaixo da meta. Esta ameaça crível de reações extremas por parte do FED a um desvio significativo da inflação em relação a sua meta seria o que tem mantido a inflação americana tão bem comportada.

Além da firme ancoragem das expectativas inflacionárias, decorrente da credibilidade do FED, outras explicações têm sido propostas para a notável estabilidade da inflação nos Estados Unidos, mesmo no atual contexto de taxa de desemprego muito baixa.

Neste artigo, de autoria de economistas da Brookings Institution, o "achatamento" da curva de Phillips é atribuído à globalização, que permite às empresas multinacionais reagir à redução do desemprego nos Estados Unidos transferindo sua produção para o exterior, em lugar de pagar salários mais altos; à redução do poder de barganha dos sindicatos de trabalhadores; ao desemprego oculto, refletido na ainda relativamente baixa taxa de participação na força de trabalho; e à expansão do comércio eletrônico, que aumentou a eficiência e a transparência de preços no setor de varejo, gerando preços mais baixos.

19.8.18

PIB per capita do Brasil - dados da PWT 9.0


De acordo com a mais nova versão (9.0) da PennWorld Table, o produto per capita do Brasil equivalia, em 2014, a 28,4% do produto per capita dos Estados Unidos [1].

O PIB per capita (Y/POP) de um país depende do PIB por trabalhador (Y/L) e da proporção da população total do país que está empregada (L/POP) [2].

O hiato entre os produtos per capita do Brasil e dos Estados Unidos, em 2014, é mais do que explicado pelo hiato no produto por trabalhador, que, no Brasil, é apenas 25,7% daquele verificado nos Estados Unidos.

Como a proporção da população empregada no Brasil (51,4%) era maior do que nos Estados Unidos (46,5%), em 2014, o hiato do PIB per capita era algo menor do que o hiato do PIB por trabalhador.

O produto por trabalhador é uma função do capital físico por trabalhador (k), do capital humano por trabalhador (h) e da eficiência com que estes recursos produtivos são utilizados, a chamada produtividade total dos fatores (A), ou seja, Y/L = A kα  h1-α, onde α é a elasticidade do produto em relação ao estoque de capital físico, equivalente, sob certas hipóteses, à participação do capital na renda.

A PWT 9.0 também traz informações sobre k e h, indicando que os valores de k e h no Brasil equivalem a 36% e 74%, respectivamente, dos valores observados nos Estados Unidos.  Supondo α=0,45, conforme estimado pela PWT 9.0, isso implica que a produtividade total dos fatores no Brasil corresponde a apenas 48% da americana.

Se fosse possível elevar a PTF brasileira ao nível americano, tudo o mais constante, o produto por trabalhador brasileiro duplicaria. Um aumento do capital físico por trabalhador do Brasil para o valor observado nos Estados Unidos, coeteris paribus, aumentaria o produto por trabalhador do Brasil em 59%, enquanto o mesmo efeito para um aumento do capital humano por trabalhador seria de 18%.

Depreende-se da análise acima que o hiato do produto por trabalhador entre Brasil e Estados Unidos é devido principalmente à baixa eficiência na utilização de recursos produtivos e à baixa relação capital/trabalho no Brasil.

[1] Para a análise conduzida nesta nota, fez-se uso da série do PIB designada como CGDPo, na PWT 9.0.

[2] Na PWT 9.0, a estimativa disponível para L corresponde ao total de pessoas engajadas na produção, definidas como todas as pessoas de 15 anos e mais que, durante a semana de referência, trabalharam, mesmo que apenas uma hora por semana, ou não estavam no trabalho, mas tinham um emprego ou negócio do qual se encontravam temporariamente ausentes.

13.7.18

Taxa de investimento e crescimento econômico


A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) em uma economia corresponde à soma do investimento de reposição (IR) e do investimento em ampliação da capacidade produtiva (investimento líquido – IL).

Supondo que as firmas sempre repõem integralmente o estoque de capital depreciado, a parcela do PIB (Y) destinada ao investimento de reposição (IR/Y) depende da taxa de depreciação do estoque de capital fixo (IR/K) e da relação capital-produto (K/Y). Esta conclusão é obtida quando se multiplica e divide IR/Y por K, que representa o estoque de capital fixo.

IR/Y = (IR/K) (K/Y) = taxa de depreciação do estoque de capital x relação capital produto

A taxa de depreciação corresponde ao inverso da vida média do estoque de capital. Assim, por exemplo, se um equipamento tem vida útil de 30 anos, sua taxa de depreciação anual será de 1/30 = 0,03333... ou de 3,3% ao ano.

Se, na economia sendo considerada, a relação capital produto é de 3, ou seja, se três unidades de capital são necessárias para se obter uma unidade de produto, o investimento de reposição corresponderá a 10% do PIB.

IR/Y = 0,033333... x 3 = 0,10

Obviamente, quanto menor a vida média do estoque de capital e maior a relação capital-produto, maior a parcela do PIB que a economia necessitará destinar ao investimento de reposição. Se, por exemplo, a vida média do estoque de capital for de apenas 25 anos e a relação capital-produto for 4, o investimento de reposição absorverá 16% do PIB.

Como mostra a tabela abaixo, com a vida média do estoque de capital fixo se situando entre 25 e 30 anos e a relação capital-produto entre 3 e 4, intervalos provavelmente realistas para o valor dessas variáveis, o investimento de reposição deve se situar entre 10% e 16% do PIB.


Relação capital-produto
Vida média do estoque de capital
3
4
30 anos
10,0
13,3
25 anos
12,0
16,0


Nos últimos dezoito anos, entre 2000 e 2017, o valor médio da Formação Bruta de Capital Fixo como proporção do PIB no Brasil foi de 18,4%.

Qual é a taxa de crescimento do PIB associada a este valor da taxa de investimento?

Para responder a esta pergunta, partimos da hipótese de que o PIB é diretamente proporcional ao estoque de capital, ou seja, que Y = AK, onde A é a relação produto-capital. Diferenciando totalmente esta equação, se obtém dY = A dK = A (IL). Dividindo os dois lados dessa expressão por Y, se obtém dY/Y = A (IL/Y), ou seja, a taxa de crescimento do PIB é dada pela taxa de investimento líquido multiplicada pela relação produto-capital.

Tomando-se, a partir da tabela, 10% do PIB como valor do investimento de reposição, o investimento em ampliação da capacidade produtiva (investimento líquido), neste século, se situou, em média, em 8,4% do PIB, no Brasil, o que implica que a taxa anual de crescimento do PIB, dada a propensão a investir do país, tende a ser de 2,8% (0,33 x 0,084 = 0,028).

A taxa média anual de crescimento do PIB observada, entre 2000 e 2017, foi de 2,6%, bastante próxima da taxa predita pelo modelo AK, sob as hipóteses aqui adotadas.

2.11.17

Crise financeira de 2008

Está disponível, na plataforma de cursos on line abertos Coursera, o curso The Global Financial Crisis, oferecido pela Universidade Yale e lecionado por Andrew Metrick e Timothy Geithner, este último ex-presidente do FED de Nova Iorque e ex-Secretário do Tesouro dos Estados Unidos. O curso proporciona uma análise bastante completa e minuciosa das causas, eventos e respostas da política econômica à crise financeira de 2008.

14.9.17

Aumento da produtividade do trabalho na indústria

As informações abaixo, publicadas por Mark Perry, do American Enterprise  Institute, em AEIdeas, oferecem alguma evidência para a explicação sobre a "estagnação secular" da produtividade do trabalho, reproduzida na postagem anterior.

  • Nos últimos 20 anos, a produção industrial nos Estados Unidos aumentou 40% em termos reais, enquanto o emprego industrial se reduziu em 29% (menos 5,1 milhões de trabalhadores empregados). 

  • Os Estados Unidos produzirão quatro vezes mais bens industriais neste ano, em comparação com 1940, com aproximadamente o mesmo número de empregos fabris.

  • O emprego na indústria como proporção do emprego total alcançou seu pico, nos Estados Unidos, em 1943 e tem declinado, desde então.

19.8.17

Estagnação secular (III)

A desaceleração do crescimento da produtividade do trabalho nos países desenvolvidos, na última década, foi ilustrada, nesta postagem, com dados para os Estados Unidos.

Timothy Lee postula, em artigo para Vox, que paradoxalmente estagnação da produtividade e rápido progresso tecnológico, na verdade, coexistiram, nesse período.

Seu argumento é que, quando a produtividade do trabalho se eleva em um setor da economia, a produção do setor pode se expandir ou se contrair. Inicialmente, ao baratear o produto, a inovação amplia o seu mercado, levando à expansão do setor que o fabrica. Com o passar do tempo, a demanda pelo produto é, em larga medida, satisfeita, de modo que aumentos subsequentes da produtividade que barateiam o produto levam principalmente a redução dos gastos com sua aquisição. O setor passa, então, a se contrair, no sentido de que passa a responder por uma parcela decrescente da renda e do emprego.

Isso é o que parece estar acontecendo no conjunto da indústria de transformação, em muitos países. O progresso técnico, neste setor, levou, no período mais recente, principalmente a melhoras de qualidade e redução do preço de produtos já existentes, com a introdução de novos produtos estando limitada quase só ao setor de informática (computadores pessoais, smartphones, DVD players, vídeo games etc.).

Com a redução decorrente da despesa com bens manufaturados, uma parcela crescente do orçamento das famílias passou a se dirigir para o setor de serviços pessoais (saúde, educação, alimentação fora do domicílio, entretenimento, cuidados com animais de estimação etc.), onde a produtividade do trabalho é baixa e se eleva lentamente, quando se eleva.

Essa mudança na estrutura da produção e do emprego na direção do setor de serviços pessoais explica a tendência à redução da taxa de crescimento da produtividade do trabalho.

Este é o paradoxo da produtividade – a redução da taxa de crescimento da produtividade agregada resulta do aumento da produtividade na indústria de transformação.

17.8.17

Distribuição geográfica da renda (PNB) mundial em 2016 - Regiões (fonte: Banco Mundial)


Regiões Renda per capita
     mundial = 100
Ásia Ocidental e Pacífico          106
Europa e Ásia Central          191
América Latina e Caribe            93
Oriente Médio e Norte da África          117
América do Norte          364
Sul da Ásia            38
África Subsaariana            22

16.8.17

Distribuição geográfica do PIB mundial em 2016 - Países (fonte: Banco Mundial)


País
% do PIB mundial
% da população mundial
PIB per
  capita do mundo=100
PIB per
  capita EUA=100
China       17,8        18,5           96           27
Estados Unidos       15,5          4,3         360         100
Índia         7,2        17,8           40           11
Japão         4,4         1,7         259           72
Alemanha         3,3         1,1         300           83
Rússia         2,8         1,9         147           41
Brasil         2,6         2,8          93           26
Indonésia         2,5         3,5          71          20
Reino Unido         2,3         0,9        255          71
França          2,3         0,9        255          71
Total       60,7       53,4        114          32

(Informações para o ano de 2018 podem ser obtidas aqui).

18.7.17

Contração fiscal expansionista

Uma redução do déficit do governo pode ter efeitos expansionistas sobre a produção e o emprego? A experiência recente da Grécia é frequentemente citada como evidência contrária a esta hipótese.

Andrés Velasco, em artigo publicado em Project Syndicate, argumenta, entretanto, que, no atual contexto brasileiro, uma contração fiscal pode ser expansionista, porque pode ser acompanhada por redução da taxa de juros real e desvalorização da taxa de câmbio real, o que, para a Grécia, devido à sua condição de membro da zona do euro, não era possível.  

22.6.17

Curva de Phillips

A taxa de desemprego variou acentuadamente nos Estados Unidos, na última década, enquanto a taxa de inflação se manteve praticamente estável. Em particular, a taxa de desemprego se reduziu de 10%, em 2009, para perto de 4%, em 2017, sem que elevação significativa fosse observada na taxa de inflação.

A relação inversa entre taxa de desemprego e taxa de inflação, postulada pela Curva de Phillips, parece, assim, ter se enfraquecido ou desaparecido.

A Curva de Phillips é dada por

π = πe α (U U*) + μ

onde

π = inflação corrente

πe = inflação esperada

U = taxa de desemprego corrente

U*= taxa de desemprego natural

μ = choque de oferta

A revista The Economist avalia, neste artigo, três possíveis explicações para o fato de a inflação não ter se elevado, à medida que a taxa de desemprego se reduziu, nos Estados Unidos, nos últimos anos:

  • variação da taxa de desemprego natural em consonância com a taxa de desemprego corrente
  • choques de oferta favoráveis 
  •  redução da inflação esperada

27.2.17

Estagnação Secular (II)

A taxa média anual de crescimento da produtividade do trabalho nos Estados Unidos se reduziu, a partir de 2003, tendo, entre 2008 e 2016, alcançado menos da metade do valor observado entre 1996 e 2002, conforme os dados reproduzidos abaixo, originalmente publicados aqui.

Esta desaceleração do crescimento da produtividade, atribuída ao avanço mais lento do progresso técnico, constitui o fundamento empírico da hipótese de "estagnação secular" discutida na última postagem, que hoje tem Robert Gordon, professor da Northwestern University, como principal proponente.


Estados Unidos - Taxa de crescimento
da  produtividade do trabalho
1948 / 1973   - 3,3%
1974 / 1996   - 1,5%
1996 / 2002   - 3,3%
2003 / 2007   - 2,2%
2008 / 2016* - 1,3%
* até o terceiro trimestre

22.2.17

Estagnação Secular (I)


Na palestra mencionada na postagem anterior, Philippe Aghion discutiu também a hipótese da “estagnação secular”, recentemente proposta por alguns economistas.

De acordo com esta hipótese, a desaceleração da taxa de crescimento da produtividade do trabalho, observada, nos últimos anos, nos países desenvolvidos, reflete uma tendência de longo prazo – não vai mais haver crescimento econômico acelerado, porque as inovações de maior impacto já ocorreram.

Em relação a esta hipótese, Aghion contrapõe os seguintes argumentos:

·         As novas tecnologias da informação e comunicação não mudaram apenas a maneira de produzir bens e serviços, mas também a maneira de produzir idéias. A tecnologia para produzir idéias nunca foi tão boa quanto é hoje.

·         Continua a haver uma grande necessidade de inovações, em áreas como saúde, energia renovável e outras, e os incentivos para a inovação são imensos, porque os retornos da inovação nunca foram tão grandes como são agora – graças à globalização, o mercado para uma grande inovação é o mundo inteiro, de modo que os retornos são muito elevados.

·         Para muitos países, há ainda a vantagem do atraso. Através de "reformas estruturais", é possível aumentar significativamente a taxa de crescimento da produtividade, como fizeram recentemente a Suécia, Holanda e Canadá.

·         Pode estar havendo problemas na mensuração do crescimento econômico, levando à impressão errônea de que o crescimento desacelerou. Quando um bem hoje custa mais do que outro bem que atendia a mesma necessidade ontem, é preciso determinar quanto dessa diferença de preço se deve a inflação e quanto se deve a melhora da qualidade. Se é exatamente o mesmo bem, o aumento de preço se deve exclusivamente à inflação. Se há uma ligeira melhora da qualidade, é possível estimar de quanto ela foi e separar os dois efeitos. Mas, quando se trata de um novo produto substituindo um produto antigo, a questão é mais complicada e aumentos de preço devidos a melhora da qualidade podem ser equivocadamente computados como inflação. É possível que o crescimento da produtividade total dos fatores esteja sendo subestimado em um ponto percentual por causa desses problemas de mensuração (em lugar de 1,5%, seja, de fato, de 2,5%, o que não se pode chamar de estagnação).

20.2.17

Armadilha da renda média


Philippe Aghion, professor do College de France, foi o conferencista convidado para a 13th Raymond Aron Lecture, organizada anualmente pela Center on the United States and Europe, da Brookings Institution.

Com o título de “Can we make growth more inclusive?”, a palestra abordou alguns dos temas centrais do debate corrente sobre crescimento econômico.

Sobre a armadilha da renda média, Aghion apresentou os argumentos resumidos abaixo.

Há duas maneiras de gerar crescimento da produtividade. Uma é alcançar os líderes, alcançar a fronteira tecnológica (catching up). A outra maneira é inovar. As políticas que promovem o catching up são diferentes das políticas que promovem a inovação.

No processo de catching up, o crescimento se dá via imitação, com transferências de tecnologia, realocação de fatores de produção e adoção de práticas gerenciais melhores. Não importa muito se a competição no mercado de produto é limitada, nem se o mercado de trabalho é pouco flexível. Importa pouco não ter bons programas de pós-graduação ou não ter equity finance (bancos e subsídios bastam).

Quando se quer fazer inovação de fronteira, por outro lado, é importante ter competição, entrada e saída fáceis no mercado de produtos. Para as firmas na fronteira tecnológica, mais competição induz inovação, para escapar da competição pela entrada. Para as firmas tecnologicamente defasadas, mais competição tende a causar mais desencorajamento. Quanto mais avançado é um país, mais firmas ele terá na fronteira tecnológica e maior o efeito sobre o crescimento da liberalização do mercado de produtos.

Para crescer via inovação, é preciso também que o mercado de trabalho seja flexível, de modo que seja possível contratar rapidamente ou demitir, se há mudança de atividade.

O crescimento é um processo conflitivo, envolve um conflito entre o velho e o novo. Inovações, particularmente inovações de fronteira, deslocam tecnologias antigas. Os inovadores de ontem tendem a se tornar os incumbentes entrincheirados de hoje, que tentam evitar que surjam inovações. Alguns países lidam com este problema melhor do que outros. Há países que começaram a crescer via catching up e que deveriam, em determinado momento, ter passado para políticas que favorecem a inovação de fronteira, ter realizado o que se tem chamado de “reformas estruturais”, mas não fizeram isso, por causa dos resistência dos incumbentes. Essa pode ser uma explicação de porque é difícil a transição do crescimento baseado na imitação para o crescimento baseado na inovação e, portanto, de porque existe a armadilha da renda média.

31.10.13

Produtividade total dos fatores no Brasil - dados da PWT 8.0


A par da estagnação do capital físico por trabalhador entre 1984 e 2011 (taxa de crescimento de apenas 0,77% ao ano, neste período), o outro fator que explica a estagnação do produto por trabalhador no Brasil, nas últimas três décadas, é o acentuado declínio da produtividade total dos fatores.

A produtividade total dos fatores aumentou 2,3 vezes, entre 1950 e 1980, e declinou de maneira quase contínua[1], a partir daí, situando-se, em 2011, em um nível 27% abaixo daquele alcançado em 1980.

Fonte dos dados: PWT8.0


[1] As únicas exceções relevantes são os períodos 1993/96 e 2006/2010, em que a PTF aumentou às taxas de 1,80% a.a. e 1,40 a.a., respectivamente.