25.7.20

Programa de Comparação Internacional 2017

Abaixo informações extraídas dos resultados, recentemente divulgados, do International Comparison Program 2017, projeto do Banco Mundial que tem por objetivo coletar dados sobre preços e despesas e calcular paridades do poder de compra, com base nas quais estimativas comparáveis do PIB para as diferentes economias nacionais (176 países, no caso do ICP 2017) são derivadas.

O valor do PIB mundial em 2017 foi de 119,5 trilhões de dólares.

O valor dos PIBs da China e Estados Unidos era praticamente idêntico (19,5 trilhões de dólares), naquele ano, com os dois países respondendo, juntos, por um terço do PIB mundial.

. O valor do PIB per capita mundial foi de 16.596 dólares, em 2017.

O PIB do Brasil foi estimado em 3 trilhões de dólares.

. O PIB per capita brasileiro, no valor de 14.520 dólares, era ligeiramente superior ao PIB per capita chinês (14.150 dólares) e equivalente a 87,5% do PIB per capital mundial e a 24,2% do PIB per capita dos Estados Unidos.

. O nível de preços no Brasil correspondia a 68,4% do nível de preços nos Estados Unidos.

26.5.20

Efeitos macroeconômicos da redução do poder de barganha dos trabalhadores

O declínio do poder de barganha dos trabalhadores foi possivelmente a mais importante mudança estrutural ocorrida na economia americana, nas últimas quatro décadas, e oferece uma explicação unificada para diversos fenômenos observados neste período, como a estagnação dos salários, a redução da participação do fator trabalho na renda, o aumento dos mark ups, da lucratividade média das empresas e do Q de Tobin e a queda da inflação e do desemprego. Este é o argumento apresentado em Working Paper da NBER, de autoria de Ana Stansbury e Lawrence Summer, publicado nesta semana.

3.5.20

Escola Austríaca

Resenha do livro “The Long Shadow of the Austrian School”, por Edward Chancellor, publicada na New York Review of Books, pode ser lida aquiA “Escola Austríaca”, no livro, inclui não apenas os suspeitos habituais Hayek e von Mises, mas também Menger, Bohm-Bawerk, Schumpeter, Harberler. Gerschenkron e Morgenstern.

27.4.20

Como reduzir o impacto dos gastos com a pandemia sobre a dívida pública

Uma alternativa ao financiamento direto pelo Banco Central dos gastos do Tesouro com a pandemia do COVID-19, envolvendo redução da taxa SELIC, venda de uma fração das reservas internacionais e a autorização para o Banco Central receber depósitos voluntários remunerados das instituições financeiras, é sugerida por Ailton Braga, neste artigo publicado no Valor – edição de 24 de abril.

12.4.20

Dinheiro de helicóptero - porque, no Brasil, não

Argumentos contrários ao financiamento do Tesouro pelo Banco Central, pelo menos no caso do Brasil, apresentados por Márcio Garcia e Marcos Mendes, na Folha de São Paulo, e por Eduardo Zilberman, no Valor.

22.3.20

Como enfrentar a crise econômica do COVID 19

Richard Baldwin e Beatrice di Mauro organizaram este e-book, publicado pelo CEPR e Vox-EU, com contribuições de Charles Wyplosz, Gita Gopinath, Olivier Blanchard, Alberto Alesina, Jordi Gali e outros economistas eminentes, sobre como enfrentar a crise econômica causada pela pandemia do COVID 19.

3.3.20

Demografia e crescimento econômico

Demografia não é destino, mas, de acordo com David Bloom, professor de economia e demografia na Universidade Harvard, determina muitas das oportunidades e desafios com que as sociedades se defrontam. Os efeitos das mudanças em curso, mundo afora, nas taxas de crescimento demográfico, de fecundidade e mortalidade e na estrutura etária da população são analisados por ele, neste artigo publicado em Finance & Development.

7.1.20

A política monetária no século XXI, segundo Bernanke

Em seu discurso presidencial, na reunião anual da American Economic Association, Ben Bernanke analisou o que seria a “política monetária do século XXI”, com foco na questão de como preservar a eficácia da política monetária, quando a taxa de juros nominal alcança o seu piso de 0%.

Se a taxa de juros nominal neutra, nos Estados Unidos, se situar no intervalo de 2% – 3%, como parece ser o caso, uma combinação de afrouxamento quantitativo e orientação futura seria suficiente, segundo Bernanke, para compensar a restrição à política monetária imposta pelo piso de 0% da taxa de juros nominal (ZLB). 

Se a taxa de juros nominal neutra for inferior a 2%, a par da utilização daqueles dois instrumentos de política, seriam também necessários um aumento da meta de inflação dos atuais 2% para 4% - 5% e uma expansão fiscal, para manter a taxa de inflação em torno da meta e a taxa de desemprego em torno da taxa natural, quando a economia estiver no ZLB.

P.S. Para uma visão mais cética com relação à potência da política monetária, no contexto atual das economias desenvolvidas, ver The Economist - edição de 11/01/2020.

21.12.19

O que há de errado na Teoria Monetária Moderna, segundo Mankiw

N.G. Mankiw identifica, neste artigo, alguns grãos de verdade na auto-designada Teoria Monetária Moderna, mas conclui que as recomendações de política da TMM “não se seguem, de forma consistente, das suas premissas”.

20.12.19

Redução da taxa de juros real e demanda agregada

A taxa de juros SELIC, descontada a inflação medida pelo IPCA-IBGE, se reduziu de cerca de 7,5% a.a., em 2016, para perto de 1% a.a., no final de 2019.

Essa redução da SELIC real se deveu, entre outros motivos, ao avanço do ajuste fiscal, iniciado no Brasil em 2015, e tende a induzir a redução das taxas de juros incidentes sobre as diferentes linhas de crédito na economia.

Como a queda da taxa de juros real afeta a demanda agregada?

Na postagem anterior, se mostrou que a redução da taxa de juros real está associada a um aumento do consumo das famílias e do investimento doméstico.

Além disso, a queda da taxa de juros eleva também o investimento externo líquido, que corresponde à diferença entre o valor das aquisições de ativos financeiros estrangeiros por residentes e o valor das aquisições de ativos financeiros domésticos por não residentes. Quando a taxa de juros doméstica se reduz, tudo o mais constante, tanto residentes como não-residentes tendem a se desfazer de ativos de emissão doméstica e a adquirir ativos emitidos no resto do mundo. Assim, a oferta de moeda estrangeira se reduz, enquanto a demanda por moeda estrangeira aumenta, levando a um aumento do preço da moeda estrangeira. A desvalorização da moeda doméstica, por sua vez, eleva as exportações líquidas de bens e serviços, contribuindo para aumentar a demanda agregada.

Portanto, o ajuste fiscal, pelos efeitos que tem sobre a taxa de juros real, induz modificações na composição da demanda agregada, resultando em contração do consumo e investimento do governo e expansão do consumo e investimento privados e das exportações líquidas.

A argumentação acima sugere que, caso o ajuste fiscal em curso seja completado e consolidado, não há motivos para maior preocupação com o fato de o déficit em conta corrente se encontrar atualmente próximo de 3% do PIB. A desvalorização da moeda doméstica, associada ao ajuste fiscal, deve contribuir para manter este déficit sob controle.

7.12.19

Absorção doméstica e taxa de juros real - 2002 / 2018

O gráfico acima mostra a relação entre a taxa de juros SELIC real e a absorção doméstica, definida como a  soma do  consumo privado (C) e formação bruta de capital (I) como proporção do PIB*. Os dados são para o Brasil e cobrem o período 2002 - 2018. 

Como se pode observar no gráfico, quando o juro real se reduz, a absorção doméstica aumenta como proporção do PIB (um clique do mouse permite melhor visualização do gráfico.)

O coeficiente de correlação entre as duas variáveis equivale a -0,79.

Uma queda da taxa SELIC real de um ponto percentual está associada a um aumento absoluto da parcela correspondente a C + I no PIB da ordem de 0,44%.

Com a SELIC real agora próxima de 0%, C + I deve se elevar dos 80% do PIB, observados em 2018, para 83% do PIB.


* A absorção doméstica inclui também o consumo do governo. Aqui, se optou por limitar a análise aos componentes da absorção doméstica mais sensíveis a mudanças na taxa de juros.

1.12.19

Distribuição da renda e da riqueza nos países capitalistas desenvolvidos

A percepção bastante difundida de que a desigualdade de renda e riqueza aumentou significativamente, nos países desenvolvidos, nos últimos 40 anos, se baseia, segundo análise publicada em The Economist, em quatro pilares.
  • a parcela da renda apropriada pelo 1% de maior rendimento aumentou consideravelmente
  • a renda mediana estagnou
  • a  participação do trabalho na renda declinou
  • a  parcela da riqueza apropriada pelos muito ricos se ampliou
Pesquisas recentes, cujos resultados são resumidos no artigo, têm posto em dúvida a evidência empírica invocada para fundamentar as quatro proposições acima.

13.11.19

Índice de Capital Humano (2)

Na postagem anterior, se mencionou que o valor relativamente baixo do Índice de Capital Humano (ICH) estimado pelo Banco Mundial para o Brasil se deve quase exclusivamente ao componente escolarização do índice.

No cálculo do ICH, o número de anos de escola que uma criança nascida hoje pode esperar ter cursado ao alcançar a idade de 18 anos, supondo que a pré-escola se inicia aos 4 anos, é dado pela soma das taxas hoje prevalecentes de matrícula entre as idades de 4 e 17 anos, tendo seu valor situado, portanto, no intervalo 0 – 14 anos.

Para o Brasil, em 2015, ano a que se referem as informações utilizadas no cálculo deste componente do ICH, eram as seguintes as taxas de matrícula por faixa etária, entre a população de 4 a 17 anos:

04 – 05 anos = 92,7%
06 – 11 anos = 88,2%
12 – 14 anos = 79,1%
15 – 17 anos = 72,4%

Assim, o numero esperado de anos de escolarização, aos 18 anos de idade, no Brasil, é atualmente de 11,7 anos.

O ajustamento dos anos de escolarização pela qualidade do aprendizado foi feito tomando-se em conta os resultados do PISA 2015. A pontuação dos estudantes brasileiros naquele exame correspondeu a 65% da pontuação máxima.

O número esperado de anos de escolarização aos 18 anos de idade, ajustado pelo aprendizado, é, portanto, de 7,6 anos (= 11,7 x 0,65), no Brasil.

9.11.19

Índice de Capital Humano (1)

O Índice de Capital Humano (ICH), estimado pelo Human Capital Project, uma iniciativa do Banco Mundial, pretende medir o nível de capital humano “que uma criança nascida hoje pode esperar alcançar, na idade de 18 anos, dados os riscos de saúde e educação deficientes que prevalecem no país em que ela nasceu”.

O índice possui três componentes:

Sobrevivência = 1 – taxa de mortalidade abaixo de 5 anos.

Escolarização = número de anos de escola que uma criança pode esperar ter cursado, ao alcançar a idade de 18 anos, dado o padrão prevalecente de taxas de matrícula, ajustado por um indicador de qualidade da educação (aprendizado).

Saúde = percentagem das pessoas com 15 anos de idade que sobrevivem até a idade de 60 anos; 1 – percentagem de crianças de menos de 5 anos de idade que estão abaixo da altura normal para a idade.

Estes componentes do ICH são combinados em um índice único, depois de estimados os impactos sobre a produtividade de cada um deles. O índice “é medido em unidades de produtividade com relação a um benchmark que corresponde à educação completa e saúde plena”, sendo 1 o seu valor máximo..


O valor do ICH brasileiro é de 0,56, o que significa que “uma criança nascida no Brasil hoje será, quando crescer, apenas 56% tão produtiva quanto poderia ser, se tivesse educação completa e saúde plena”.

Este valor do ICH situa o Brasil no 81º lugar entre 157 países e é algo inferior ao que se poderia esperar para um país com o nível de renda per capita brasileiro. 


Singapura é o país com maior ICH (0,88), enquanto o Chile (0,67) tem o ICH mais elevado na América Latina e Caribe (0,55). Entre os BRICS, o ICH do Brasil é inferior ao da Rússia (0,73) e China (0,67) e superior ao da Índia (0,44) e da África do Sul (0,41). 

Os valores para o Brasil dos indicadores que entram no cálculo do ICH são:

taxa de sobrevivência até a idade de 5 anos = 99%
taxa de sobrevivência dos adultos = 86%
taxa de crianças com altura normal para a idade = 94%
anos esperados de escolarização ajustados pelo aprendizado = 7,6 anos

A educação completa é definida como 14 anos de escolarização com aprendizado integral. Portanto, é fundamentalmente o componente educação que determina o baixo valor do ICH brasileiro. 

Considerando que o retorno da educação é de 8% por ano de escolaridade, os 7,6 anos de escolarização ajustada pelo aprendizado reduzem a produtividade do trabalhador brasileiro a apenas 60% da produtividade de um trabalhador com educação completa [(e ^ 0,08*7,6) / (e ^ 0,08*14)] = 0,6].

Se o trabalhador brasileiro possuísse educação completa, o ICH do Brasil seria de 0,94, tendo em vista que o valor dos outros três indicadores para o Brasil está relativamente próximo de 100%.

4.11.19

Políticas para redução da desigualdade

O Peterson Institute for International Economics sediou, em outubro, seminário que debateu os impactos do progresso tecnológico, comércio internacional e instituições do mercado de trabalho sobre a desigualdade de renda. Políticas voltadas para a redução da desigualdade foram também discutidas.

O seminário foi organizado por Olivier Blanchard e Dani Rodrik e contou com a participação, entre outros economistas, de Greg Mankiw, Daren Acemoglu, Philippe Aghion, Lawrence Katz, David Autor e Emanuel Saez.

26.10.19

As pessoas não reagem só a incentivos

Esther Duflo e Abhijit Banerjee, ganhadores do Prêmio Nobel de Economia de 2019, em artigo publicado em The New York Times, argumentam que, ao contrário do que supõe o livro-texto de economia, as pessoas nem sempre reagem ou, com frequência, reagem apenas fracamente a incentivos financeiros. Considerações relativas a status, auto-estima e conexões sociais podem ser tão ou mais importantes do que aqueles incentivos. Por esse motivo, a resposta a choques econômicos, tanto benéficos como negativos, não ocorre com a rapidez e intensidade normalmente supostas pelos economistas. Por exemplo, se a concorrência de produtos importados leva ao fechamento de fábricas em uma região, uma parcela significativa dos trabalhadores desempregados, devido a considerações como as mencionadas acima, não se moverá para outros setores ou regiões onde o emprego esteja se expandindo. Assim, mercados, por si sós, nem sempre são capazes de produzir resultados justos ou mesmo apenas eficientes, com a intervenção do governo sendo requerida.

19.10.19

Fim da inflação?

O "achatamento da curva de Phillips", ou seja, a ausência de resposta da taxa de inflação a mudanças na taxa de desemprego, observada nas últimas duas décadas, foi o tema de um seminário organizado pela Brookings Institution, no início de outubro, reunindo, entre outros, os economistas Janet Yellen, Ben Bernanke, Olivier Blanchard e Paul Krugman.

Ver também, a respeito, esta postagem anterior do blog.

22.9.19

Como narrativas afetam a atividade econômica

Os agentes econômicos privados – consumidores e empresários – utilizam narrativas para organizar os fragmentos de informação sobre a economia que colhem, de forma mais ou menos aleatória, junto a conhecidos, na imprensa ou nas redes sociais. Estas narrativas tendem a influenciar suas decisões e podem periodicamente se espalhar como epidemias (viralizar), afetando a atividade econômica, transformando expansões e recessões limitadas em flutuações de maior amplitude.

Esta idéia foi exposta por Robert Shiller, ganhador do Prêmio Nobel de Economia - 2013, no seu discurso presidencial para a American Economic Association, em 2017, e foi retomada agora por ele no livro "Narrative Economics: How Stories Go Viral and Drive Major Economic Events".

Uma breve apresentação dos argumentos do livro pelo próprio Shiller pode ser encontrada nesta palestra e em artigo publicado em The New York Times.

20.9.19

Automação e desemprego

A automação e os ganhos de produtividade a ela associados tendem a criar ou eliminar empregos?

De acordo com James Bessen, neste artigo publicado em Vox, o efeito do progresso técnico sobre o emprego varia ao longo do tempo.

Quando a produtividade começa se elevar em um setor de produção, a demanda pelo bem ou serviço, porque ainda se encontra, em larga medida, não atendida, tende a ser bastante elástica em relação ao preço, ou seja, aumenta significativamente, na medida em que custos de produção e preços se reduzem. Nesse período, ganhos de produtividade tendem a estar associados a aumento do emprego.

Com o passar do tempo, sendo progressivamente saciada, a demanda pelo bem ou serviço tende a se tornar menos sensível à redução de preços, de modo que ganhos de produtividade adicionais tendem a reduzir o emprego.

8.9.19

Distribuição geográfica do PIB mundial - 2018


O PIB mundial alcançou, em 2018, 136,5 trilhões de dólares americanos, com um valor por habitante de 17.971 dólares.

A tabela acima mostra a participação das 10 maiores economias nacionais no PIB mundial (um clique do mouse sobre a tabela permitirá melhor visualização).

Os países listados respondem por 61% do PIB e 53% da população mundial.

A economia chinesa ocupa o topo do ranking, respondendo por 18% do PIB global e apresentando uma renda per capita equivalente à média mundial e a 28% da renda per capita dos Estados Unidos, a maior, dentre as 10 economias que figuram na tabela.

O grupo de grandes economias desenvolvidas formado por Japão, Alemanha, Reino Unido e França tem renda per capita no intervalo entre 67% e 86% da renda por habitante americana.

O Brasil talvez não possa mais ser classificado como um país de renda média – sua renda per capita, depois de quatro anos de recessão e estagnação econômica, se encontrava, em 2018, 11% abaixo da média mundial.

As informações sobre PIB e população em que se baseia a tabela foram produzidas pelo Banco Mundial.

1.9.19

Renda per capita do Brasil - revisão da serie histórica pelo Projeto Maddison

A base de dados mais utilizada para comparações históricas de níveis de renda entre países é produzida pelo Projeto Maddison, sediado no Groningen Growth and Development Centre – Universidade de Groningen, na Holanda.

Na construção da última versão desta base de dados – a MPD 2018, uma nova abordagem, descrita  neste documento, foi adotada para a medição do PIB per capita dos países.

Primeiro, o índice GK (Geary-Khamis), utilizado nas versões anteriores da MPD para as comparações internacionais de preços, foi substituído pelo índice GEKS (Gini-Elteto-Koves-Szule). Como o índice GK tende a subestimar os preços nos países de baixa renda e, portanto, a superestimar os níveis de PIB per capita destes países, as diferenças de renda entre países pobres e ricos tendem a ser mais acentuadas na MPD 2018.

Além disso, na MPD 2018, as comparações de renda se basearam em um número maior de fontes de informação - estudos históricos sobre PIB real per capita, diferentes levantamentos do International Comparison Program (ICP) etc. No caso do Brasil, especificamente, além das Contas Nacionais, uma fonte adicional relevante foi a base de dados Barro-Ursua.

A MPD 2018 efetuou uma substancial revisão para baixo das estimativas de renda per capita do Brasil, o que é mostrado na figura, que apresenta a razão entre as rendas per capita do Brasil e dos Estados Unidos, no período 1870/2010, com os dados em azul tendo sido extraídos da MPD 2013 e os dados em vermelho, da MPD 2018 (serie CGDPPC).

Assim, por exemplo, para o ano de 1980, importante porque marca o final do "milagre econômico", a razão entre os PIBs per capita do Brasil e dos Estados Unidos foi estimada em 28% na MPD 2013 e em 17% na MPD 2018.

O memorando metodológico citado acima, em seu apêndice B, sugere que esta diferença pode ser explicada por:

(i) revisões das estimativas do PIB per capita do Brasil (62% da diferença) e dos Estados Unidos (25% da diferença), que envolveram redução do valor estimado do PIB per capita brasileiro e aumento do valor estimado do PIB per capita americano.

(ii) revisão para cima da estimativa da relação entre os níveis de preços do Brasil e dos Estados Unidos (13% da diferença), decorrente principalmente da substituição do índice GK pelo índice GEKS, no cômputo da paridade do poder de compra.

26.8.19

"Estagnação secular" - impotência da política monetária

Lawrence Summers e Anna Stansbury, em artigo publicado pelo Project Syndicate (1), sugerem que o problema da “estagnação secular”, identificado por Summers em 2013, é “muito mais profundo do que é geralmente avaliado” (2).

Para os autores, reduções adicionais das taxas de juros "podem ser não apenas insuficientes, mas, de fato, contraproducentes, como resposta para a estagnação secular".

Isso ocorreria porque, enquanto o impacto positivo de uma redução de juros sobre a demanda agregada é atualmente bastante limitado, devido à contração da participação no PIB dos setores cuja demanda é sensível à taxa de juros, a redução dos juros pode ter efeitos deletérios sobre a demanda agregada, a eficiência da economia e a estabilidade financeira (3).


Redução da demanda agregada

Uma redução da taxa de juros pode causar uma queda da despesa de consumo, se o efeito-renda da redução do juro sobre o consumo mais do que compensar o efeito-substituição.

Se a queda da taxa de juros resultar em juros nominais negativos para os depositantes, a despesa de consumo pode se reduzir, em consequência do efeito riqueza negativo da contração dos saldos monetários mantidos pelos consumidores nos bancos.

Uma redução dos juros pode levar a uma redução da oferta de crédito, porque reduz a lucratividade dos intermediários financeiros, afetando negativamente sua posição de capital.


Redução da eficiência econômica

Taxas de juros baixas impedem a alocação eficiente de recursos, porque contribuem para manter a tona empresas ineficientes e favorecem as firmas incumbentes, reduzindo a competição.


Aumento da instabilidade financeira

Taxas de juros baixas promovem a formação de bolhas nos preços dos ativos, aumentando a instabilidade financeira.


A origem das dificuldades econômicas atuais, segundo Summers e Stansbury, estaria não nos problemas de rigidez e fricções postulados pela Nova Economia Keynesiana para explicar as flutuações macroeconômicas, mas em “uma falta de demanda agregada mais fundamental”.

Assim, seria necessário voltar às “velhas” concepções keynesianas sobre a impotência da política monetária e a necessidade de estimular a demanda agregada via política fiscal e outros meios.


(1) Uma versão do artigo em português pode ser encontrada aqui.

(2) Sobre o conceito de "estagnação secular", consultar também esta postagem.

(3) Argumentos semelhantes são apresentados por Thomas Palley, neste artigo.

23.8.19

Mudança cultural e crescimento econômico

Crescimento econômico, entendido como o aumento relativamente rápido e sustentado da produção de bens e serviços por habitante, é um fenômeno recente, observado apenas nos últimos dois séculos da história da humanidade.

Joel Mokyr, no livro “A Culture of Growth: The Origins of the Modern Economy”, propõe que a emergência do crescimento econômico decorreu de uma mudança cultural – a disseminação da idéia de que o mundo natural é uma realidade objetiva, que pode ser compreendida e, a partir disso, controlada, tendo em vista o aumento do bem estar humano.

A gestação e difusão desta concepção do mundo, para Mokyr, foi um resultado da formação na Europa, a partir do século XVII, de uma comunidade transnacional de “scholars”, caracterizada por uma nova atitude com relação à produção do conhecimento, baseada nas normas de Merton do "comunalismo, universalismo, desinteresse e ceticismo organizado”.

Mais do que a geografia (à la Diamond) ou as instituições (à la North), foram as idéias, a cultura que tiveram um papel decisivo para o crescimento econômico, de acordo com Mokyr.

Enrico Spolaore resenha o livro neste working paper da NBER.

20.8.19

Queda "secular" da taxa de juros

Nas últimas semanas, se assistiu a mais uma rodada de redução de taxas de juros básicas mundo afora.

Vale a pena, nesse contexto, recordar as principais explicações para os níveis muito baixos de taxas de juros observados nas economias desenvolvidas, desde a crise financeira de 2008.

Como ensina o manual de macroeconomia, a taxa de juros real de longo prazo é determinada pela poupança, que corresponde à oferta de fundos de empréstimo, e pelo investimento, que corresponde à demanda por aqueles fundos. Assim, reduções da taxa de juros real de equilíbrio devem estar associadas a aumento da poupança e/ou redução do investimento.

As causas mais apontadas para o aumento da poupança, nas duas últimas décadas, são:

– aumento da expectativa de vida: vivendo mais tempo aposentadas e, assim, sem renda do trabalho, as pessoas necessitam poupar mais, para preservar seu padrão de consumo no período de aposentadoria.

– aumento da desigualdade na distribuição de renda: como a propensão a poupar dos ricos é maior do que a dos pobres, um aumento da concentração de renda leva a um aumento da taxa de poupança.

Os motivos mais mencionados para a redução do investimento são:

– crescimento da população e progresso técnico mais lentos: como o estoque de capital desejado pelas empresas é proporcional ao PIB, a redução da taxa de crescimento do PIB, que é determinada pela soma das taxas de crescimento da população e de progresso técnico, leva a uma redução da taxa de investimento.

– queda do custo do investimento, decorrente do aumento da participação de bens de informática, cujos preços se reduziram rapidamente, no investimento total.

– aumento da importância relativa do setor de tecnologia da informação, que é menos intensivo em capital físico e, portanto, demanda menos fundos para investimento, no investimento total.

Uma discussão dessas e outras questões relacionadas à queda da taxa de juros real de equilíbrio pode ser encontrada no e-book Secular Stagnation: facts, causes and cures, organizado por Coen Teulings e Richard Baldwin.


A par dos fatores listados acima, a demanda de investimento das empresas pode também estar sendo negativamente afetada, mais recentemente, pela "guerra comercial" promovida pelo governo Trump - não tanto pelo aumento das tarifas de importação, mas principalmente pelo caráter errático, imprevisível desta política e pelo consequente aumento da incerteza, conforme Paul Krugman explica aqui.

18.8.19

Como tributar os ricos

Natasha Sarin e Lawrence Summers, nestes links - Parte 1 e Parte 2 -, discutem três alternativas para aumentar a tributação incidente sobre as rendas muito elevadas:

(i) alargamento da base tributária, através do combate à evasão fiscal, eliminação de lacunas na legislação que permitem diminuição do imposto a pagar, redução de isenções e deduções para os ricos, tributação de ganhos de capital não realizados e ampliação do imposto sobre heranças

(ii) aumento da alíquota marginal do imposto de renda

(iii) criação de um imposto sobre a riqueza

14.8.19

Preços quânticos

O conceito de preços quânticos, derivado da análise de dados sobre preços de grandes empresas de varejo, conduzida pelos economistas do MIT Roberto Rigobon e Diego Aparicio, é discutido neste artigo de The Economist – edição de 10/08/2019.

O ponto de partida é a constatação de que firmas que vendem milhares de itens diferentes não os oferecem a milhares de preços diferentes, mas, em vez disso, tendem a agrupá-los em um número limitado de pontos de preços (a Uniqlo, por exemplo, vende 4.000 itens, distribuídos em menos de 20 preços).

Quando mudam o preço de um item, tais firmas, em lugar de mover o preço um pouco, tendem a realocar o item para uma das categorias pré-existentes de preços, ou seja, seus preços variam de maneira discreta, não contínua (daí a designação de “preços quânticos”).

Com frequência, quando as condições de mercado se modificam, estas firmas, em lugar de rever seus preços, (re)desenham seus produtos, de modo a adequá-los aos pontos de preço em que já se encontram. Se, por exemplo, os custos de produção sobem, em lugar de subir os preços, as firmas reduzem a qualidade, tamanho ou peso do produto.

Uma das implicações desse tipo de precificação é que uma queda da taxa de desemprego e o aumento de salários a ela associado afetam pouco os índices de inflação. Essa subestimação da inflação pode ser uma das possíveis explicações para o “achatamento” da curva de Phillips.

11.8.19

Riqueza Nacional

A renda e o bem estar dos residentes de um país dependem de sua riqueza, ou seja, da sua dotação de recursos produtivos.

Estimativas da riqueza nacional para 141 países estão disponíveis no relatório The Changing Wealth of Nations, publicado pelo Banco Mundial. 

Na definição do Banco Mundial, a riqueza nacional possui quatro componentes:

·         capital natural: óleo, gás natural e carvão; minerais; lavouras e pastagens; florestas; reservas naturais (áreas terrestres protegidas)

·         capital produzido: estruturas e edifícios; máquinas e equipamentos; terrenos urbanos residenciais e não residenciais

·         capital humano: conhecimento, experiência e esforço dos integrantes da força de trabalho

·         ativo externo líquido, que equivale à posição de investimento internacional do país


Capital Natural

O valor dos recursos que compõem o estoque de capital natural de um país é estimado como o valor presente do fluxo de renda esperado do recurso, com a renda sendo dada pela diferença entre o valor da produção e o custo dos insumos, incluídos neste custo a remuneração do trabalho e o retorno “normal” do capital.

O fluxo de renda esperado pode ser finito ou infinito, dependendo de o recurso ser exaurível ou renovável, e é obtido a partir da suposição de que a renda anual futura do recurso será igual à renda observada em anos recentes.

O valor presente deste fluxo de renda esperado é dado pela aplicação de uma taxa de desconto de 4% a.a., correspondente à taxa observada de retorno real de longo prazo (100 anos ou mais) dos ativos financeiros.

Capital Humano

O estoque de capital humano é calculado de forma similar, sendo dado pelo valor presente do fluxo esperado de rendas do trabalho, ao longo do tempo de vida da pessoa.

Supõe-se que a renda do trabalho aumenta a uma taxa constante de 2,5% a.a., devido ao aumento da produtividade, com o fluxo de renda esperado sendo, então, descontado à mesma taxa constante de 4% a.a., de modo que a taxa de desconto efetiva é de 1,5% a.a.

Capital Produzido

O valor do estoque de estruturas e edifícios e de máquinas e equipamentos é obtido pelo método do inventário perpétuo, enquanto o valor dos terrenos urbanos é estimado como uma proporção fixa, equivalente a 24%, do total do capital produzido.


Como mostra a tabela abaixo, o capital natural responde por uma parcela maior (20%) da riqueza nacional do Brasil, em comparação com os países de alta renda da OCDE (apenas 3%), com a participação do capital produzido (17%) e, em menor medida, também do capital humano (65%), em contrapartida, sendo mais reduzida no Brasil do que naqueles países.


                                       Riqueza por tipo de ativo - 2014 (% do total)

Tipo de ativo                             Mundo    Países de renda      Países de alta            Brasil
                                                                    média alta              renda da OCDE

Capital Natural                                9                  17                               3                         20
Capital Produzido                           27                 25                              28                        17
Capital Humano                              64                 58                             70                         65
Ativo Externo Líquido                      0                   0                               -1                         -2

Total                                              100               100                            100                      100

8.8.19

Senhoriagem



Senhoriagem é a diferença entre o valor de face de uma nota de real e o seu custo de produção. Corresponde, assim, ao lucro que o governo obtém com a emissão de moeda.

A figura acima mostra que o custo de produzir mil notas de 50 reais, com um valor de face total de R$ 50 mil, era de apenas R$ 62,75, em 2002, com a diferença constituindo lucro para o Banco Central e, portanto, receita para o governo.

Esta página traz informações sobre o custo de produção das notas e moedas de dólares americanos, em 2019. Assim, por exemplo, para produzir uma nota de 100 dólares, o custo incorrido pelo Federal Reserve é de apenas 14,02 centavos de dólar.

6.8.19

Atraso da renda per capita do Brasil

Uma maneira simples de avaliar o atraso de um país em termos de renda per capita é mostrar com que antecedência países desenvolvidos alcançaram o nível de renda corrente do país de interesse.

Dados da MPD 2018 indicam que a renda per capita do Brasil em 2015 equivalia à renda per capita dos Estados Unidos em 1950, ou seja, em relação aos Estados Unidos, o atraso brasileiro é de 65 anos.

O ano de 2015 foi escolhido para a comparação porque é o ano em que a renda per capita do Brasil alcança o valor mais elevado na série CGDPPC daquela base de dados, a suposição, neste caso, sendo que a queda da renda per capita brasileira ocorrida nos anos seguintes se deve a choques de natureza temporária, cujo efeito se dissipará completamente, no longo prazo.


PIB per capita do Brasil em 2015 era igual ao PIB per capita

      dos Estados Unidos em 1950/51

      da França em 1968/69

      da Alemanha em 1968/69

      do Reino Unido em 1969/70

      do Japão em 1972/73

      da Itália em 1975/76

      da Espanha em 1988/89

      de Portugal em 1992/93 

5.8.19

Como ensinar Introdução a Economia


De acordo com Justin Wolfers, mostrando para os estudantes que tanto a microeconomia como a macroeconomia proporcionam ferramentas de análise de grande valia para a tomada de decisões de natureza pessoal, profissional e patrimonial, ou seja, são úteis mesmo para quem não pretende seguir a carreira de economista.

Leia o artigo e assista o vídeo.

3.8.19

Dilemas da política monetária sob governos populistas


Raghuran Rajan explica, neste artigo, o conundrum (para cunhar uma expressão) enfrentado pelos Bancos Centrais sob governos populistas.

·         A incerteza gerada pelas ações heterodoxas e imprevisíveis de um governo populista tem um efeito deflacionário.

·         Como o mandato do Banco Central requer um afrouxamento da política monetária quando o crescimento desacelera, mesmo um Banco Central autônomo se torna efetivamente um seguidor do governo populista.

·         Isso, por sua vez, pode estimular o governo a adotar políticas ainda mais arriscadas, na suposição de que o Banco Central resgatará a economia, se necessário.

·         Como a capacidade do Banco Central de compensar erros de política é, na verdade, limitada, a situação da economia pode se tornar bastante problemática, com o BC sendo, então, acusado de não fazer o suficiente.

28.7.19

Uso de "big data" no desenho de políticas sociais


As dezoito aulas do curso “Using big data to solve economic and social problems”, lecionado por Raj Chetty, na Universidade Harvard, estão disponíveis em vídeo aqui. Examinando temas como igualdade de oportunidade, educação, saúde, meio ambiente e justiça criminal, entre outros, o curso proporciona uma introdução aos métodos estatísticos básicos e às técnicas de análise de dados utilizadas na pesquisa em economia.

Em artigo, publicado em The New York Times, Chetty argumenta que, com a crescente disponibilidade de dados e a aplicação dos métodos e técnicas discutidas no curso mencionado acima, a economia tem se tornado cada vez mais uma disciplina essencialmente empírica e científica.

27.7.19

Crescimento econômico no Brasil desde 1850

A versão mais recente das estatísticas históricas sobre PIB per capita publicadas pelo Projeto Maddison, a MPD 2018, propôs uma revisão bastante significativa das estimativas de renda relativa para a América Latina e o Brasil*, nos últimos 170 anos.

De acordo com a MPD 2018, o PIB per capita do Brasil, em 1850, já estava reduzido a apenas 21% do PIB per capita dos Estados Unidos. No último quarto do século XIX, a divergência entre as rendas brasileira e americana se acentuou, como mostra o gráfico acima, com a razão entre elas permanecendo quase sempre abaixo de 10% durante a primeira metade do século XX.

A partir de 1945, com a aceleração do crescimento econômico no Brasil, este hiato se reduziu - o PIB per capita brasileiro se elevou a cerca de 17% do americano no anos 70 e se manteve, com oscilações, próximo desse nível durante as “décadas perdidas”.

Durante a expansão Lula, entre 2004 e 2010, a razão entre as rendas per capita do Brasil e Estados Unidos chegou a 29%, vindo, entretanto, a se reduzir, no período mais recente, em consequência da recessão brasileira de 2014-16.

* A respeito das mudanças metodológicas que motivaram tal revisão, consultar esta postagem.



13.7.19

Crescimento do PIB per capita no Brasil

"Entre 1985 e 2018, nosso PIB per capita cresceu à taxa média de 0,9% ao ano. Nesse mesmo período, observou-se uma alta média de 3,4% a.a. no PIB per capita dos países em desenvolvimento, de 1,6% a.a. no dos países ricos e de 1,2% a.a. no da América Latina, excluindo o Brasil. Caminhamos para deixar de ser um país de renda média e voltar a ser um país pobre" (Armando Castelar Pinheiro, Valor - 05/0/2019).

"Achatamento" da curva de Phillips

Desde 2010, a taxa de inflação nos Estados Unidos, medida pelo deflator das despesas de consumo pessoal, se situou quase sempre abaixo da meta de 2%, estabelecida pelo Federal Reserve (FED), apesar da acentuada redução da taxa de desemprego, de 10%, em 2010, para menos de 4%, em 2019, conforme mostra o gráfico abaixo.


Robert Barro, em artigo publicado pelo Project Syndicate, considera difícil compreender como o FED conseguiu manter a taxa de inflação neste intervalo de 1% - 2%, na última década, apenas manejando a federal funds rate (a taxa de juros básica americana, análoga à SELIC brasileira), um instrumento que a evidência empírica sugere ser fraco e ter efeitos bastante retardados sobre a inflação.

Segundo Barro, a explicação mais frequente, embora não muito satisfatória, para este enigma é que os agentes econômicos acreditam que, se a inflação se elevar substancialmente acima do intervalo 1,5% - 2%, o FED reagirá elevando dramaticamente a taxa de juros nominal e, da mesma forma, cortará a taxa de juros nominal (ou usará políticas monetárias alternativas, se a taxa de juros nominal chegar ao seu piso de zero), também de forma agressiva, quando a inflação cair bem abaixo da meta. Esta ameaça crível de reações extremas por parte do FED a um desvio significativo da inflação em relação a sua meta seria o que tem mantido a inflação americana tão bem comportada.

Além da firme ancoragem das expectativas inflacionárias, decorrente da credibilidade do FED, outras explicações têm sido propostas para a notável estabilidade da inflação nos Estados Unidos, mesmo no atual contexto de taxa de desemprego muito baixa.

Neste artigo, de autoria de economistas da Brookings Institution, o "achatamento" da curva de Phillips é atribuído à globalização, que permite às empresas multinacionais reagir à redução do desemprego nos Estados Unidos transferindo sua produção para o exterior, em lugar de pagar salários mais altos; à redução do poder de barganha dos sindicatos de trabalhadores; ao desemprego oculto, refletido na ainda relativamente baixa taxa de participação na força de trabalho; e à expansão do comércio eletrônico, que aumentou a eficiência e a transparência de preços no setor de varejo, gerando preços mais baixos.

19.8.18

PIB per capita do Brasil - dados da PWT 9.0


De acordo com a mais nova versão (9.0) da PennWorld Table, o produto per capita do Brasil equivalia, em 2014, a 28,4% do produto per capita dos Estados Unidos [1].

O PIB per capita (Y/POP) de um país depende do PIB por trabalhador (Y/L) e da proporção da população total do país que está empregada (L/POP) [2].

O hiato entre os produtos per capita do Brasil e dos Estados Unidos, em 2014, é mais do que explicado pelo hiato no produto por trabalhador, que, no Brasil, é apenas 25,7% daquele verificado nos Estados Unidos.

Como a proporção da população empregada no Brasil (51,4%) era maior do que nos Estados Unidos (46,5%), em 2014, o hiato do PIB per capita era algo menor do que o hiato do PIB por trabalhador.

O produto por trabalhador é uma função do capital físico por trabalhador (k), do capital humano por trabalhador (h) e da eficiência com que estes recursos produtivos são utilizados, a chamada produtividade total dos fatores (A), ou seja, Y/L = A kα  h1-α, onde α é a elasticidade do produto em relação ao estoque de capital físico, equivalente, sob certas hipóteses, à participação do capital na renda.

A PWT 9.0 também traz informações sobre k e h, indicando que os valores de k e h no Brasil equivalem a 36% e 74%, respectivamente, dos valores observados nos Estados Unidos.  Supondo α=0,45, conforme estimado pela PWT 9.0, isso implica que a produtividade total dos fatores no Brasil corresponde a apenas 48% da americana.

Se fosse possível elevar a PTF brasileira ao nível americano, tudo o mais constante, o produto por trabalhador brasileiro duplicaria. Um aumento do capital físico por trabalhador do Brasil para o valor observado nos Estados Unidos, coeteris paribus, aumentaria o produto por trabalhador do Brasil em 59%, enquanto o mesmo efeito para um aumento do capital humano por trabalhador seria de 18%.

Depreende-se da análise acima que o hiato do produto por trabalhador entre Brasil e Estados Unidos é devido principalmente à baixa eficiência na utilização de recursos produtivos e à baixa relação capital/trabalho no Brasil.

[1] Para a análise conduzida nesta nota, fez-se uso da série do PIB designada como CGDPo, na PWT 9.0.

[2] Na PWT 9.0, a estimativa disponível para L corresponde ao total de pessoas engajadas na produção, definidas como todas as pessoas de 15 anos e mais que, durante a semana de referência, trabalharam, mesmo que apenas uma hora por semana, ou não estavam no trabalho, mas tinham um emprego ou negócio do qual se encontravam temporariamente ausentes.

13.7.18

Taxa de investimento e crescimento econômico


A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) em uma economia corresponde à soma do investimento de reposição (IR) e do investimento em ampliação da capacidade produtiva (investimento líquido – IL).

Supondo que as firmas sempre repõem integralmente o estoque de capital depreciado, a parcela do PIB (Y) destinada ao investimento de reposição (IR/Y) depende da taxa de depreciação do estoque de capital fixo (IR/K) e da relação capital-produto (K/Y). Esta conclusão é obtida quando se multiplica e divide IR/Y por K, que representa o estoque de capital fixo.

IR/Y = (IR/K) (K/Y) = taxa de depreciação do estoque de capital x relação capital produto

A taxa de depreciação corresponde ao inverso da vida média do estoque de capital. Assim, por exemplo, se um equipamento tem vida útil de 30 anos, sua taxa de depreciação anual será de 1/30 = 0,03333... ou de 3,3% ao ano.

Se, na economia sendo considerada, a relação capital produto é de 3, ou seja, se três unidades de capital são necessárias para se obter uma unidade de produto, o investimento de reposição corresponderá a 10% do PIB.

IR/Y = 0,033333... x 3 = 0,10

Obviamente, quanto menor a vida média do estoque de capital e maior a relação capital-produto, maior a parcela do PIB que a economia necessitará destinar ao investimento de reposição. Se, por exemplo, a vida média do estoque de capital for de apenas 25 anos e a relação capital-produto for 4, o investimento de reposição absorverá 16% do PIB.

Como mostra a tabela abaixo, com a vida média do estoque de capital fixo se situando entre 25 e 30 anos e a relação capital-produto entre 3 e 4, intervalos provavelmente realistas para o valor dessas variáveis, o investimento de reposição deve se situar entre 10% e 16% do PIB.


Relação capital-produto
Vida média do estoque de capital
3
4
30 anos
10,0
13,3
25 anos
12,0
16,0


Nos últimos dezoito anos, entre 2000 e 2017, o valor médio da Formação Bruta de Capital Fixo como proporção do PIB no Brasil foi de 18,4%.

Qual é a taxa de crescimento do PIB associada a este valor da taxa de investimento?

Para responder a esta pergunta, partimos da hipótese de que o PIB é diretamente proporcional ao estoque de capital, ou seja, que Y = AK, onde A é a relação produto-capital. Diferenciando totalmente esta equação, se obtém dY = A dK = A (IL). Dividindo os dois lados dessa expressão por Y, se obtém dY/Y = A (IL/Y), ou seja, a taxa de crescimento do PIB é dada pela taxa de investimento líquido multiplicada pela relação produto-capital.

Tomando-se, a partir da tabela, 10% do PIB como valor do investimento de reposição, o investimento em ampliação da capacidade produtiva (investimento líquido), neste século, se situou, em média, em 8,4% do PIB, no Brasil, o que implica que a taxa anual de crescimento do PIB, dada a propensão a investir do país, tende a ser de 2,8% (0,33 x 0,084 = 0,028).

A taxa média anual de crescimento do PIB observada, entre 2000 e 2017, foi de 2,6%, bastante próxima da taxa predita pelo modelo AK, sob as hipóteses aqui adotadas.

2.11.17

Crise financeira de 2008

Está disponível, na plataforma de cursos on line abertos Coursera, o curso The Global Financial Crisis, oferecido pela Universidade Yale e lecionado por Andrew Metrick e Timothy Geithner, este último ex-presidente do FED de Nova Iorque e ex-Secretário do Tesouro dos Estados Unidos. O curso proporciona uma análise bastante completa e minuciosa das causas, eventos e respostas da política econômica à crise financeira de 2008.

14.9.17

Aumento da produtividade do trabalho na indústria

As informações abaixo, publicadas por Mark Perry, do American Enterprise  Institute, em AEIdeas, oferecem alguma evidência para a explicação sobre a "estagnação secular" da produtividade do trabalho, reproduzida na postagem anterior.

  • Nos últimos 20 anos, a produção industrial nos Estados Unidos aumentou 40% em termos reais, enquanto o emprego industrial se reduziu em 29% (menos 5,1 milhões de trabalhadores empregados). 

  • Os Estados Unidos produzirão quatro vezes mais bens industriais neste ano, em comparação com 1940, com aproximadamente o mesmo número de empregos fabris.

  • O emprego na indústria como proporção do emprego total alcançou seu pico, nos Estados Unidos, em 1943 e tem declinado, desde então.