28.8.07

Raízes da crise nos mercados financeiros

Da coluna de Yoshiaki Nakano, na edição de hoje do Valor Econômico:
"Com a pressão deflacionária exercida pela forte expansão da capacidade produtiva global e integração ao mercado internacional de centenas de milhões de trabalhadores chineses, indianos e do Leste Europeu, a curva de Phillips nas economias desenvolvidas se tornou mais horizontal. Tornou-se possível ter taxa de inflação muito baixa com níveis menores de desemprego. A combinação do regime de metas de inflação com o uso da regra de Taylor, de acordo com a qual controla-se apenas a taxa de juros, o que torna a expansão monetária e creditícia inteiramente endógena, ou seja, determinada pela demanda, levou a um grande aumento da liquidez e do crédito. Com o aparente sucesso da política monetária, a inflação de crédito e de preços dos ativos ficou de fora das preocupações dos bancos centrais".

24.8.07

Convergência de rendas per capita

  • O gráfico acima, extraído do paper de Robert Lucas mencionado na postagem anterior, mostra o conhecido resultado de ausência de convergência internacional de rendas per capita, fazendo uso de dados de Angus Maddison para 122 países, no período 1960-2000.
  • De acordo com Lucas, "os países ricos - principalmente Europa, América do Norte e Japão - apresentam todos taxas de crescimento da renda per capita próximas de 2%. Os países mais pobres - principalmente África e Ásia - apresentam uma variação extremada nas suas taxas de crescimento, desde o crescimento milagroso da Coréia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Singapura até a estagnação e mesmo crescimento negativo de alguns países africanos e asiáticos".

Difusão do desenvolvimento entre economias abertas

Robert Lucas, em um recém-publicado NBER Working Paper, propõe um modelo para explicar como a "revolução industrial" é difundida entre economias abertas, o qual se baseia nas seguintes hipóteses:

1. As economias são do tipo "AK", com o nível de produto per capita sendo proporcional ao estoque de conhecimento médio dos indivíduos.
2. A taxa de crescimento do estoque de conhecimento na economia líder é uma constante μ.
3. A taxa de crescimento do estoque de conhecimento nas economias seguidoras é μ (H/h)^θ, onde H é o estoque de conhecimento na economia líder e h é o estoque de conhecimento na economia seguidora.

Dado que H > h, a hipótese 3 implica que as economias seguidoras crescem a uma taxa superior a μ, tanto maior quanto maior o hiato (H/h) entre os níveis de conhecimento da economia líder e da economia seguidora.

A evidência empírica sugere que μ = 0,02 e θ = 0,67.

Calibrando o modelo com estes valores para os parâmetros μ e θ, é possível replicar bastante bem a relação entre o nível inicial e a taxa de crescimento da renda per capita do período 1960-2000, observada em 31 das 39 economias definidas como abertas na conhecida classificação de Sachs e Warner.

Este resultado é mostrado no gráfico, onde a curva com inclinação negativa representa os resultados da calibração descrita acima.

As 8 economias "fora da curva" correspondem principalmente a economias asiáticas bastante pobres, apesar de abertas. Para replicar a experiência de economias como estas, Lucas propõe uma versão modificada do modelo, em que a taxa de crescimento do estoque de conhecimento depende também de efeitos de aglomeração, sendo tanto mais reduzida quanto maior a parcela da população do país empregada na agricultura.

O modelo de Lucas supõe que todas as economias convergem para o nível de renda per capita da economia líder no longo prazo, mas, para as economias mais pobres, a convergência pode demorar mais de 2 séculos - "o crescimento econômico, mesmo sob condições ideais, é um processo lento".

19.8.07

Injeção de liquidez - como se faz

O Federal Reserve Bank injetou bilhões de dólares no sistema bancário americano, nos últimos dias, em vista dos problemas de liquidez que os bancos estão enfrentando. Artigos em Slate e em The New York Times explicam como esta injeção de liquidez é realizada.

Reciclando: manias, pânicos e quebras

Esta postagem anterior, feita em março e extraída de artigo de Aquiles Mosca, publicado no Valor Econômico, descreve o mecanismo de propagação de crises nos mercados de ações e ajuda a entender parte do que está acontecendo atualmente nestes mercados, mundo afora.

18.8.07

Produtividade no Brasil

Da coluna de Cláudio Haddad, no Valor Eonomico:

"São nove horas da manhã. Um caminhão velho, carregado de abacaxis, estaciona em local proibido, em uma rua movimentada de um bairro nobre de São Paulo. Uma tabuleta na traseira do caminhão indica ser aquele o 'abacaxi pérola da roça'. Em poucos instantes, é gerado um enorme congestionamento no local. Estimando-se, conservadoramente, o custo do tempo dos ocupantes dos veículos em R$ 60 por hora, o fluxo de veículos em 50 por minuto, a perda adicional de tempo provocada pelo caminhão em um minuto e considerando-se apenas um ocupante por veículo, o caminhão, em meia hora, teria provocado perdas de R$ 1.500. Ao preço de R$ 2 por abacaxi e uma margem de 50%, os donos do caminhão teriam de vender 3 mil abacaxis, provavelmente mais do que a carga do caminhão, para compensar o custo por eles produzido em meia hora. Atividades como essa, comuns nas cidades brasileiras, são rentáveis para quem as exerce e geram benefícios para os consumidores que as financiam. Mas geram custos significativos para o resto da sociedade, que, no entanto, são ignorados ou tolerados. No Brasil, infelizmente, a eficiência ainda é sacrificada pela ideologia, pela má compreensão do funcionamento do sistema econômico e por uma falsa 'preferência pelo excluído', cuja contrapartida é a alta tolerância com o ilícito".

Seleção natural e revolução industrial (II)

David Warsh também comenta, em economicprincipals, a hipótese de Gregory Clark sobre a relação entre seleção natural e revolução industrial, que foi objeto de uma postagem recente neste blog.

A resenha não é muito simpática ao livro de Clark, que Warsh considera uma tentativa de ressuscitar a abordagem social-darwinista.

Além disso, para Warsh, o argumento principal do livro nem seria originalmente de Clark, tendo sido proposto antes por Oded Galor, em um paper publicado em 2002 no Quarterly Journal of Economics.

Galor explicou sua "teoria evolucionária do crescimento" nesta entrevista.

8.8.07

Produtividade


O Bureau of Labor Statistics, órgão do governo americano, comparou a produtividade por trabalhador e a produtividade por hora dos EUA com a de outros países desenvolvidos.

O trabalhador americano produziu em média o equivalente a US$ 90 mil de produto em 2006, valor calculado em paridade de poder de compra. Somente os noruegueses tiveram um desempenho melhor - em parte, pelo menos, por causa da produção de petróleo.

Ao considerar o produto por hora, porém, o BLS verificou que noruegueses, belgas, holandeses e franceses superam os US$ 50 por hora dos americanos, como indica a tabela acima.

A tabela foi originalmente publicada em The Economist e reproduzida no Valor Econômico.

Estudo de caso para alunos de microeconomia - a tragédia de Congonhas (II)

Da coluna de Elio Gaspari, na edição de hoje da Folha São Paulo:

"Desde 1982, a literatura técnica ensinava que o movimento do aeroporto de Congonhas não podia passar da marca dos 14 milhões de passageiros /ano. Quando o Airbus da TAM explodiu, o movimento estava em 18 milhões".

Nesta outra postagem, o problema de super-utilização do aeroporto foi interpretado como um caso de "tragédia dos comuns".

7.8.07

Seleção natural e revolução industrial (I)

A revolução industrial resultou de um processo de seleção natural que levou a mudanças de comportamento entre a população da Inglaterra. A tese de Gregory Clark, da Universidade da Califórnia - Davis, é explicada em um artigo de Nicholas Wade, publicado na edição de hoje do New York Times.

Atraso de 83 anos

Quando as principais economias desenvolvidas alcançaram o atual patamar de renda per capita do Brasil?

De acordo com as estimativas de Angus Maddison, publicadas no livro "The world economy: historical statistics", as 7 maiores economias desenvolvidas chegaram à renda per capita brasileira de 2001 nos seguintes anos:

Reino Unido - 1918
Estados Unidos - 1918
Alemanha - 1941
França - 1951
Itália - 1959
Japão - 1964
Espanha - 1968

A renda per capita do Brasil em 2006 era apenas 9% maior do que em 2001, de modo que as informações de Maddison dão uma boa idéia do atraso em que ainda nos encontramos, em termos de renda.

6.8.07

Estudo de caso para alunos de microeconomia - a tragédia de Congonhas (I)

Em artigo na edição de hoje do Valor Econômico, Sérgio Werlang mostra que o excesso de tráfego aéreo no aeroporto de Congonhas, verificado até recentemente, é um exemplo da "tragédia dos comuns":
"Ficou claro [com o acidente da TAM] que havia excesso de vôos em Congonhas. Isto ocorreu porque não há sistema de preços para as janelas de pouso e decolagem. Simplesmente as companhias aéreas iam requisitando e obtendo licenças. O que deveria ser feito? As janelas não deveriam ser concedidas livremente, mas ter preço de mercado. Uma das formas possíveis é a ANAC determinar o limite seguro de operação de Congonhas e leiloar estes direitos. Assim, vários problemas seriam resolvidos. Primeiro, passageiros que quisessem o conforto de parar em Congonhas teriam que pagar mais por isso, uma vez que as companhias teriam pago pelos direitos de pouso e decolagem. Segundo, as linhas aéreas não usariam Congonhas para vôos de conexão, a não ser se fossem muito lucrativos - as conexões podem ser feitas em qualquer aeroporto onde haja mais vagas (nos EUA várias cidades não centrais são núcleos de conexão)".

3.8.07

Declínio da violência em São Paulo

A incidência de homicídios dolosos caiu de 3.208 casos, no primeiro semestre de 2006, para 2.510 casos, em igual período de 2007 (redução de 21,8%), em São Paulo.

Este é um movimento que já dura oito anos. Em 1999, pico de homicídios, foram 12.818 mortes. Em 2006, o número e a taxa de assassinatos haviam caído mais de 50%.

Possíveis causas, segundo editorial publicado na edição de hoje da Folha de São Paulo, seriam:

  • Elevação do gasto em segurança pública, com o consequente aumento do número de detenções e condenações.
  • Melhora da distribuição de equipamentos públicos nas regiões violentas, decorrente da ação de governos e ONGs.
  • Campanhas pelo desarmamento.
  • Relativa recuperação do mercado de trabalho.
  • Envelhecimento da população e seu enraizamento, com o fim das grandes ondas de migração para os centros urbanos paulistas.