13.7.18

Taxa de investimento e crescimento econômico


A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) em uma economia corresponde à soma do investimento de reposição (IR) e do investimento em ampliação da capacidade produtiva (investimento líquido – IL).

Supondo que as firmas sempre repõem integralmente o estoque de capital depreciado, a parcela do PIB (Y) destinada ao investimento de reposição (IR/Y) depende da taxa de depreciação do estoque de capital fixo (IR/K) e da relação capital-produto (K/Y). Esta conclusão é obtida quando se multiplica e divide IR/Y por K, que representa o estoque de capital fixo.

IR/Y = (IR/K) (K/Y) = taxa de depreciação do estoque de capital x relação capital produto

A taxa de depreciação corresponde ao inverso da vida média do estoque de capital. Assim, por exemplo, se um equipamento tem vida útil de 30 anos, sua taxa de depreciação anual será de 1/30 = 0,03333... ou de 3,3% ao ano.

Se, na economia sendo considerada, a relação capital produto é de 3, ou seja, se três unidades de capital são necessárias para se obter uma unidade de produto, o investimento de reposição corresponderá a 10% do PIB.

IR/Y = 0,033333... x 3 = 0,10

Obviamente, quanto menor a vida média do estoque de capital e maior a relação capital-produto, maior a parcela do PIB que a economia necessitará destinar ao investimento de reposição. Se, por exemplo, a vida média do estoque de capital for de apenas 25 anos e a relação capital-produto for 4, o investimento de reposição absorverá 16% do PIB.

Como mostra a tabela abaixo, com a vida média do estoque de capital fixo se situando entre 25 e 30 anos e a relação capital-produto entre 3 e 4, intervalos provavelmente realistas para o valor dessas variáveis, o investimento de reposição deve se situar entre 10% e 16% do PIB.


Relação capital-produto
Vida média do estoque de capital
3
4
30 anos
10,0
13,3
25 anos
12,0
16,0


Nos últimos dezoito anos, entre 2000 e 2017, o valor médio da Formação Bruta de Capital Fixo como proporção do PIB no Brasil foi de 18,4%.

Qual é a taxa de crescimento do PIB associada a este valor da taxa de investimento?

Para responder a esta pergunta, partimos da hipótese de que o PIB é diretamente proporcional ao estoque de capital, ou seja, que Y = AK, onde A é a relação produto-capital. Diferenciando totalmente esta equação, se obtém dY = A dK = A (IL). Dividindo os dois lados dessa expressão por Y, se obtém dY/Y = A (IL/Y), ou seja, a taxa de crescimento do PIB é dada pela taxa de investimento líquido multiplicada pela relação produto-capital.

Tomando-se, a partir da tabela, 10% do PIB como valor do investimento de reposição, o investimento em ampliação da capacidade produtiva (investimento líquido), neste século, se situou, em média, em 8,4% do PIB, no Brasil, o que implica que a taxa anual de crescimento do PIB, dada a propensão a investir do país, tende a ser de 2,8% (0,33 x 0,084 = 0,028).

A taxa média anual de crescimento do PIB observada, entre 2000 e 2017, foi de 2,6%, bastante próxima da taxa predita pelo modelo AK, sob as hipóteses aqui adotadas.

2.11.17

Crise financeira de 2008

Está disponível, na plataforma de cursos on line abertos Coursera, o curso The Global Financial Crisis, oferecido pela Universidade Yale e lecionado por Andrew Metrick e Timothy Geithner, este último ex-presidente do FED de Nova Iorque e ex-Secretário do Tesouro dos Estados Unidos. O curso proporciona uma análise bastante completa e minuciosa das causas, eventos e respostas da política econômica à crise financeira de 2008.

14.9.17

Aumento da produtividade do trabalho na indústria

As informações abaixo, publicadas por Mark Perry, do American Enterprise  Institute, em AEIdeas, oferecem alguma evidência para a explicação sobre a "estagnação secular" da produtividade do trabalho, reproduzida na postagem anterior.

  • Nos últimos 20 anos, a produção industrial nos Estados Unidos aumentou 40% em termos reais, enquanto o emprego industrial se reduziu em 29% (menos 5,1 milhões de trabalhadores empregados). 

  • Os Estados Unidos produzirão quatro vezes mais bens industriais neste ano, em comparação com 1940, com aproximadamente o mesmo número de empregos fabris.

  • O emprego na indústria como proporção do emprego total alcançou seu pico, nos Estados Unidos, em 1943 e tem declinado, desde então.

19.8.17

Estagnação secular (III)

A desaceleração do crescimento da produtividade do trabalho nos países desenvolvidos, na última década, foi ilustrada, nesta postagem, com dados para os Estados Unidos.

Timothy Lee postula, em artigo para Vox, que paradoxalmente estagnação da produtividade e rápido progresso tecnológico, na verdade, coexistiram, nesse período.

Seu argumento é que, quando a produtividade do trabalho se eleva em um setor da economia, a produção do setor pode se expandir ou se contrair. Inicialmente, ao baratear o produto, a inovação amplia o seu mercado, levando à expansão do setor que o fabrica. Com o passar do tempo, a demanda pelo produto é, em larga medida, satisfeita, de modo que aumentos subsequentes da produtividade que barateiam o produto levam principalmente a redução dos gastos com sua aquisição. O setor passa, então, a se contrair, no sentido de que passa a responder por uma parcela decrescente da renda e do emprego.

Isso é o que parece estar acontecendo no conjunto da indústria de transformação, em muitos países. O progresso técnico, neste setor, levou, no período mais recente, principalmente a melhoras de qualidade e redução do preço de produtos já existentes, com a introdução de novos produtos estando limitada quase só ao setor de informática (computadores pessoais, smartphones, DVD players, vídeo games etc.).

Com a redução decorrente da despesa com bens manufaturados, uma parcela crescente do orçamento das famílias passou a se dirigir para o setor de serviços pessoais (saúde, educação, alimentação fora do domicílio, entretenimento, cuidados com animais de estimação etc.), onde a produtividade do trabalho é baixa e se eleva lentamente, quando se eleva.

Essa mudança na estrutura da produção e do emprego na direção do setor de serviços pessoais explica a tendência à redução da taxa de crescimento da produtividade do trabalho.

Este é o paradoxo da produtividade – a redução da taxa de crescimento da produtividade agregada resulta do aumento da produtividade na indústria de transformação.

17.8.17

Distribuição geográfica da renda (PNB) mundial em 2016 - Regiões (fonte: Banco Mundial)


Regiões Renda per capita
     mundial = 100
Ásia Ocidental e Pacífico          106
Europa e Ásia Central          191
América Latina e Caribe            93
Oriente Médio e Norte da África          117
América do Norte          364
Sul da Ásia            38
África Subsaariana            22

16.8.17

Distribuição geográfica do PIB mundial em 2016 - Países (fonte: Banco Mundial)


País
% do PIB mundial
% da população mundial
PIB per
  capita do mundo=100
PIB per
  capita EUA=100
China       17,8        18,5           96           27
Estados Unidos       15,5          4,3         360         100
Índia         7,2        17,8           40           11
Japão         4,4         1,7         259           72
Alemanha         3,3         1,1         300           83
Rússia         2,8         1,9         147           41
Brasil         2,6         2,8          93           26
Indonésia         2,5         3,5          71          20
Reino Unido         2,3         0,9        255          71
França          2,3         0,9        255          71
Total       60,7       53,4        114          32

18.7.17

Contração fiscal expansionista

Uma redução do déficit do governo pode ter efeitos expansionistas sobre a produção e o emprego? A experiência recente da Grécia é frequentemente citada como evidência contrária a esta hipótese.

Andrés Velasco, em artigo publicado em Project Syndicate, argumenta, entretanto, que, no atual contexto brasileiro, uma contração fiscal pode ser expansionista, porque pode ser acompanhada por redução da taxa de juros real e desvalorização da taxa de câmbio real, o que, para a Grécia, devido à sua condição de membro da zona do euro, não era possível.  

22.6.17

Curva de Phillips

A taxa de desemprego variou acentuadamente nos Estados Unidos, na última década, enquanto a taxa de inflação se manteve praticamente estável. Em particular, a taxa de desemprego se reduziu de 10%, em 2009, para perto de 4%, em 2017, sem que elevação significativa fosse observada na taxa de inflação.

A relação inversa entre taxa de desemprego e taxa de inflação, postulada pela Curva de Phillips, parece, assim, ter se enfraquecido ou desaparecido.

A Curva de Phillips é dada por

π = πe α (U U*) + μ

onde

π = inflação corrente

πe = inflação esperada

U = taxa de desemprego corrente

U*= taxa de desemprego natural

μ = choque de oferta

A revista The Economist avalia, neste artigo, três possíveis explicações para o fato de a inflação não ter se elevado, à medida que a taxa de desemprego se reduziu, nos Estados Unidos, nos últimos anos:

  • variação da taxa de desemprego natural em consonância com a taxa de desemprego corrente
  • choques de oferta favoráveis 
  •  redução da inflação esperada

27.2.17

Estagnação Secular (II)

A taxa média anual de crescimento da produtividade do trabalho nos Estados Unidos se reduziu, a partir de 2003, tendo, entre 2008 e 2016, alcançado menos da metade do valor observado entre 1996 e 2002, conforme os dados reproduzidos abaixo, originalmente publicados aqui.

Esta desaceleração do crescimento da produtividade, atribuída ao avanço mais lento do progresso técnico, constitui o fundamento empírico da hipótese de "estagnação secular" discutida na última postagem, que hoje tem Robert Gordon, professor da Northwestern University, como principal proponente.


Estados Unidos - Taxa de crescimento
da  produtividade do trabalho
1948 / 1973   - 3,3%
1974 / 1996   - 1,5%
1996 / 2002   - 3,3%
2003 / 2007   - 2,2%
2008 / 2016* - 1,3%
* até o terceiro trimestre

22.2.17

Estagnação Secular (I)


Na palestra mencionada na postagem anterior, Philippe Aghion discutiu também a hipótese da “estagnação secular”, recentemente proposta por alguns economistas.

De acordo com esta hipótese, a desaceleração da taxa de crescimento da produtividade do trabalho, observada, nos últimos anos, nos países desenvolvidos, reflete uma tendência de longo prazo – não vai mais haver crescimento econômico acelerado, porque as inovações de maior impacto já ocorreram.

Em relação a esta hipótese, Aghion contrapõe os seguintes argumentos:

·         As novas tecnologias da informação e comunicação não mudaram apenas a maneira de produzir bens e serviços, mas também a maneira de produzir idéias. A tecnologia para produzir idéias nunca foi tão boa quanto é hoje.

·         Continua a haver uma grande necessidade de inovações, em áreas como saúde, energia renovável e outras, e os incentivos para a inovação são imensos, porque os retornos da inovação nunca foram tão grandes como são agora – graças à globalização, o mercado para uma grande inovação é o mundo inteiro, de modo que os retornos são muito elevados.

·         Para muitos países, há ainda a vantagem do atraso. Através de "reformas estruturais", é possível aumentar significativamente a taxa de crescimento da produtividade, como fizeram recentemente a Suécia, Holanda e Canadá.

·         Pode estar havendo problemas na mensuração do crescimento econômico, levando à impressão errônea de que o crescimento desacelerou. Quando um bem hoje custa mais do que outro bem que atendia a mesma necessidade ontem, é preciso determinar quanto dessa diferença de preço se deve a inflação e quanto se deve a melhora da qualidade. Se é exatamente o mesmo bem, o aumento de preço se deve exclusivamente à inflação. Se há uma ligeira melhora da qualidade, é possível estimar de quanto ela foi e separar os dois efeitos. Mas, quando se trata de um novo produto substituindo um produto antigo, a questão é mais complicada e aumentos de preço devidos a melhora da qualidade podem ser equivocadamente computados como inflação. É possível que o crescimento da produtividade total dos fatores esteja sendo subestimado em um ponto percentual por causa desses problemas de mensuração (em lugar de 1,5%, seja, de fato, de 2,5%, o que não se pode chamar de estagnação).

20.2.17

Armadilha da renda média


Philippe Aghion, professor do College de France, foi o conferencista convidado para a 13th Raymond Aron Lecture, organizada anualmente pela Center on the United States and Europe, da Brookings Institution.

Com o título de “Can we make growth more inclusive?”, a palestra abordou alguns dos temas centrais do debate corrente sobre crescimento econômico.

Sobre a armadilha da renda média, Aghion apresentou os argumentos resumidos abaixo.

Há duas maneiras de gerar crescimento da produtividade. Uma é alcançar os líderes, alcançar a fronteira tecnológica (catching up). A outra maneira é inovar. As políticas que promovem o catching up são diferentes das políticas que promovem a inovação.

No processo de catching up, o crescimento se dá via imitação, com transferências de tecnologia, realocação de fatores de produção e adoção de práticas gerenciais melhores. Não importa muito se a competição no mercado de produto é limitada, nem se o mercado de trabalho é pouco flexível. Importa pouco não ter bons programas de pós-graduação ou não ter equity finance (bancos e subsídios bastam).

Quando se quer fazer inovação de fronteira, por outro lado, é importante ter competição, entrada e saída fáceis no mercado de produtos. Para as firmas na fronteira tecnológica, mais competição induz inovação, para escapar da competição pela entrada. Para as firmas tecnologicamente defasadas, mais competição tende a causar mais desencorajamento. Quanto mais avançado é um país, mais firmas ele terá na fronteira tecnológica e maior o efeito sobre o crescimento da liberalização do mercado de produtos.

Para crescer via inovação, é preciso também que o mercado de trabalho seja flexível, de modo que seja possível contratar rapidamente ou demitir, se há mudança de atividade.

O crescimento é um processo conflitivo, envolve um conflito entre o velho e o novo. Inovações, particularmente inovações de fronteira, deslocam tecnologias antigas. Os inovadores de ontem tendem a se tornar os incumbentes entrincheirados de hoje, que tentam evitar que surjam inovações. Alguns países lidam com este problema melhor do que outros. Há países que começaram a crescer via catching up e que deveriam, em determinado momento, ter passado para políticas que favorecem a inovação de fronteira, ter realizado o que se tem chamado de “reformas estruturais”, mas não fizeram isso, por causa dos resistência dos incumbentes. Essa pode ser uma explicação de porque é difícil a transição do crescimento baseado na imitação para o crescimento baseado na inovação e, portanto, de porque existe a armadilha da renda média.

31.10.13

Produtividade total dos fatores no Brasil - dados da PWT 8.0


A par da estagnação do capital físico por trabalhador entre 1984 e 2011 (taxa de crescimento de apenas 0,77% ao ano, neste período), o outro fator que explica a estagnação do produto por trabalhador no Brasil, nas últimas três décadas, é o acentuado declínio da produtividade total dos fatores.

A produtividade total dos fatores aumentou 2,3 vezes, entre 1950 e 1980, e declinou de maneira quase contínua[1], a partir daí, situando-se, em 2011, em um nível 27% abaixo daquele alcançado em 1980.

Fonte dos dados: PWT8.0


[1] As únicas exceções relevantes são os períodos 1993/96 e 2006/2010, em que a PTF aumentou às taxas de 1,80% a.a. e 1,40 a.a., respectivamente.

Capital físico por trabalhador no Brasil - dados da PWT 8.0


O produto por trabalhador (Y/L) no Brasil aumentou 3,8 vezes, entre 1950 e 1980, ao passo que, nas três décadas seguintes, se elevou em apenas 10%.

Um dos fatores que explicam a estagnação do produto por trabalhador, a partir de 1981, é a queda na taxa de crescimento da relação capital físico por trabalhador (K/L), mostrada no gráfico acima.

O capital físico por trabalhador aumentou 2,5 vezes, entre 1950 e 1983, permaneceu estagnado durante o restante da década de 80, voltou a se elevar na década de 90 e teve seu crescimento interrompido novamente a partir de 2000. Entre 1984 e 2011, aumentou apenas 24%.

Fonte dos dados: PWT 8.0

29.8.13

Produtividade do trabalho no Brasil - dados da PWT 8.0


O produto por trabalhador (Y/L) praticamente quadruplicou (aumento de 3,8 vezes) no Brasil, entre 1950 e 1980, o que corresponde a uma taxa média anual de crescimento de 4,54% (ver gráfico)[1].

A produtividade do trabalho declinou acentuadamente na década de 80, com uma redução acumulada de 16%, entre 1980 e 1992. Embora tenha se recuperado a partir de 1993, ainda se encontrava em 2006 no mesmo patamar alcançado em 1980.

Entre 2007 e 2011, a produtividade do trabalho voltou a se elevar, apresentando, neste período, uma taxa de crescimento média de 2,10% ao ano.

Para o conjunto do período 1950/2011, a taxa média de crescimento anual do produto por trabalhador foi de 2,36%.

Tendo em conta a projeção para a taxa de crescimento da população em idade ativa (15 a 64 anos) de 1,0% ao ano, entre 2013 e 2020, mantidas a taxa de aumento da produtividade do trabalho observada entre 2007 e 2011 e a atual taxa de emprego (proporção dos empregados na população em idade ativa), a taxa de crescimento do PIB potencial no Brasil deverá se situar em torno de 3,0% ao ano, no restante da década.

Fonte dos dados: PWT 8.0


[1] Nestas estimativas, baseadas na série RGDPna da Penn World Table 8.0, não se desconta o efeito de mudanças nos termos de troca sobre o PIB e, portanto, sobre o produto por trabalhador.

3.8.13

Crescimento econômico no Brasil entre 2003 e 2011

De acordo com os dados da Penn World Table 8.0, o crescimento acumulado do PIB, no Brasil, durante o período 2003/2011 foi de 31,6%, implicando um aumento do PIB per capita de 20,0%, ou 2,04% ao ano.

No mesmo período, o crescimento acumulado do PIB por trabalhador foi de 6,0% (ou 0,65% ao ano), enquanto a proporção da população empregada aumentou de 45% para 51% (1,39% ao ano).

Duas conclusões importantes podem ser extraídas das informações acima:

(1) O crescimento do PIB por trabalhador no Brasil foi bastante baixo, entre 2003 e 2011. À taxa de crescimento anual observada neste período, são necessários 108 anos para dobrar o produto por trabalhador.

(2) Cerca de dois terços (68%) do crescimento do PIB per capita durante o governo Luís Inácio-Dilma se deveu ao aumento da proporção dos empregados na população total.

Note-se que os dados acima não captam integralmente a melhora do padrão de vida médio verificada no Brasil no período 2003/2011, porque refletem apenas o impacto do aumento da capacidade produtiva do país (medido pela série RGDPo, na Penn World Table 8.0) sobre o padrão de vida.

Como é bem sabido, o Brasil se beneficiou neste período de termos de troca favoráveis com o exterior, os quais na PWT 8.0 são levados em conta na série RGDPe[1]. O aumento acumulado da renda no Brasil, entre 2003 e 2011, quando o efeito dos termos de troca favoráveis é computado, o que corresponde à medida mais adequada da melhora do padrão de vida médio, foi de 39,6%, implicando um aumento per capita de 2,72% ao ano.

Em resumo, ao longo do período 2003/2001, tem-se no Brasil:

  • crescimento do produto por trabalhador (a) = 0,65% a.a.
  • crescimento da taxa de emprego – L/POP (b) = 1,39% a.a.
  • crescimento da renda per capita devido ao aumento da capacidade produtiva (a+b) = 2,04% a.a.
  • crescimento da renda per capita computado o efeito dos termos de troca favoráveis (c) = 2,72% a.a.
  • crescimento da população (d) = 1,03% a.a.
  • crescimento da renda total (c+d)= 3,78% a.a.
Assim, a expansão do emprego responde por cerca de metade da melhora do padrão de vida médio no Brasil, entre 2003 e 2011, com os ganhos de produtividade e os termos de troca com o exterior favoráveis respondendo, em proporção aproximadamente igual, pela outra metade daquela melhora.

Com o mercado de trabalho tendo se aproximado recentemente da situação de pleno emprego e sem a perspectiva de ganhos adicionais nos termos de troca com o exterior, a melhora do padrão de vida doravante dependerá principalmente do aumento da produtividade do trabalho, o qual, no entanto, como se mostrou acima, foi muito baixo na economia brasileira, na última década.



[1] Na definição adotada pela PWT 8.0, os termos de troca com o exterior são favoráveis a um país quando este exporta (importa) um dado produto a um preço maior (menor) do que o preço médio mundial.

2.8.13

PIB per capita do Brasil - dados da PWT 8.0

De acordo com a mais nova versão (8.0) da Penn World Table, o produto per capita do Brasil equivalia, em 2011, a 20,7% do produto per capita dos Estados Unidos[1].

O PIB per capita (Y/POP) de um país depende do PIB por trabalhador (Y/L) e da proporção da população total do país que está empregada (L/POP).

O hiato entre os produtos per capita do Brasil e dos Estados Unidos, em 2011, é mais do que explicado pelo hiato no produto por trabalhador, que, no Brasil, é apenas 18,3% daquele verificado nos Estados Unidos[2].

Como a proporção da população empregada no Brasil (51%) era maior do que nos Estados Unidos (45%) em 2011, o hiato do PIB per capita era algo menor do que o hiato no PIB por trabalhador.

O produto por trabalhador é uma função do capital físico por trabalhador (k), do capital humano por trabalhador (h) e da eficiência com que estes recursos produtivos são utilizados, a chamada produtividade total dos fatores (A):

Y/L = y = A kα  h 1-α

onde α é a elasticidade do produto em relação ao estoque de capital físico, equivalente, sob certas hipóteses, à participação do capital na renda.

A PWT 8.0 também traz informações sobre k e h, indicando que os valores de k e h no Brasil equivalem a 22% e 68%, respectivamente, dos valores observados nos Estados Unidos.  Supondo α=0,45, conforme estimado pela PWT8.0, isso implica que a produtividade total dos fatores no Brasil corresponde a apenas 44% da americana.

Se fosse possível elevar a PTF brasileira ao nível americano, tudo o mais constante, o produto por trabalhador brasileiro aumentaria 2,3 vezes. Um aumento do capital físico por trabalhador do Brasil para o valor observado nos Estados Unidos, coeteris paribus, aumentaria o produto por trabalhador do Brasil em 95%, enquanto o mesmo efeito para um aumento do capital humano por trabalhador seria de 23%.

Depreende-se da análise acima que o hiato do produto por trabalhador entre Brasil e Estados Unidos é devido principalmente à baixa eficiência na utilização de recursos produtivos e à baixa relação capital/trabalho no Brasil.
 



[1] Para a análise conduzida nesta postagem, fez-se uso da série do PIB designada como CGDPo, na PWT 8.0. Informações sobre os procedimentos adotados para estimação desta série e de outras séries do PIB reportadas na PWT 8.0, que serão utilizadas nas postagens que se seguirão, podem ser encontradas aqui.
[2] Em termos do produto por trabalhador, dentre os países do G-20, o Brasil supera apenas a Índia, a Indonésia e a China, enquanto na América do Sul supera apenas a Bolívia e o Paraguai.

29.9.12

Distribuição geográfica do PIB mundial - 2011 (II) - Ranking dos países



A tabela acima mostra a participação das 10 maiores economias nacionais no PIB mundial (um clique do mouse sobre a tabela permitirá melhor visualização).

Os 10 países listados respondem por 62% do PIB e 52% da população mundial.

A economia americana sozinha concentra 18,6% do PIB global, apresentando uma renda per capita 4,1 vezes maior do que a média mundial.

China e Índia, apesar de responderem juntas por 19,6% do PIB mundial, são países bastante pobres, com rendas per capita correspondentes a 17,5% e 7,6%, respectivamente, da renda dos Estados Unidos.

O grupo de grandes economias desenvolvidas formado por Japão, Alemanha, França, Reino Unido e Itália tem renda per capita no intervalo entre 64% e 80% da renda americana.

O Brasil é um país de renda média. Respondendo por perto de 2,8% tanto do PIB como da população mundial, possui uma renda per capita igual à média dos 182 países pesquisados e equivalente a 24,2% da renda americana.

As informações sobre PIB e população em que se baseia a tabela foram produzidas pelo Banco Mundial.

18.9.12

Distribuição geográfica do PIB mundial - 2011 (I)


A tabela acima foi construída a partir de informações do Banco Mundial sobre o PIB e a população de 182 países, em 2011 (um clique do mouse sobre a tabela permitirá visualização adequada).

As estimativas para o valor em dólares do PIB dos países foram obtidas através de taxas de câmbio baseadas no conceito de paridade do poder de compra (PPC). Taxas de câmbio PPC, por atribuírem ao dólar o mesmo poder de compra em todos os países, possibilitam que se compare de maneira apropriada o produto de diferentes economias nacionais.

O PIB mundial alcançou o valor de 81,2 trilhões de dólares em 2011.

O PIB per capita mundial, dada a população de 7 bilhões de pessoas, foi de 11.640 dólares, naquele ano.

Os países de alta renda concentram 54% da produção mundial e abrigam apenas 16% da população. Os países de renda baixa e média, onde residem 84% da população mundial, respondem por apenas 46% do produto.

A renda per capita dos Estados Unidos é 4 vezes maior do que a renda média mundial e 21 vezes maior do que a renda média da África Sub-Sahariana, a região mais pobre do planeta.

A América Latina e Caribe tem renda per capita próxima da renda média mundial.

8.5.12

Deflação

Desde o início da crise financeira internacional em 2008, os Bancos Centrais das economias desenvolvidas estão empenhados em evitar que a deflação, ou seja, uma queda generalizada de preços, se estabeleça, em decorrência da insuficiência de demanda agregada.

Por que uma deflação causada pela insuficiência de demanda é considerada indesejável? O principal motivo é que a deflação pode provocar novas reduções da demanda agregada, agravando a recessão e mesmo levando a economia a uma depressão.

A deflação pode causar redução da demanda agregada através dos seguintes canais:

1. Se os consumidores esperam uma queda futura de preços, podem adiar suas compras, reduzindo o gasto em consumo.

2. A redução dos salários pode afetar a confiança das famílias e, portanto, de novo, a sua propensão a consumir.

3. Quando a taxa de juros nominal alcança o seu limite inferior, ou seja, chega a zero, a deflação pode causar um aumento da taxa de juros real, o que induzirá a redução dos gastos em consumo e investimento e das exportações líquidas.

4. A deflação aumenta a dívida das famílias e empresas em termos reais, o que pode levar a queda das despesas de consumo e investimento.

5. Se, em decorrência do aumento da taxa de juros real e do valor das suas dívidas, em um contexto já recessivo, a inadimplência de famílias e empresas aumenta, uma crise financeira pode ocorrer. A consequente redução do crédito provocará queda da demanda agregada.

6. A compressão dos lucros, decorrente da queda dos preços, combinada com o aumento da taxa de juros real, pode causar um colapso do gasto em investimento das empresas.