23.8.19

Mudança cultural e crescimento econômico

Crescimento econômico, entendido como o aumento relativamente rápido e sustentado da produção de bens e serviços por habitante, é um fenômeno recente, observado apenas nos últimos dois séculos da história da humanidade.

Joel Mokyr, no livro “A Culture of Growth: The Origins of the Modern Economy”, propõe que a emergência do crescimento econômico decorreu de uma mudança cultural – a disseminação da idéia de que o mundo natural é uma realidade objetiva, que pode ser compreendida e, a partir disso, controlada, tendo em vista o aumento do bem estar humano.

A gestação e difusão desta concepção do mundo, para Mokyr, foi um resultado da formação na Europa, a partir do século XVII, de uma comunidade transnacional de “scholars”, caracterizada por uma nova atitude com relação à produção do conhecimento, baseada nas normas de Merton do "comunalismo, universalismo, desinteresse e ceticismo organizado”.

Mais do que a geografia (à la Diamond) ou as instituições (à la North), foram as idéias, a cultura que tiveram um papel decisivo para o crescimento econômico, de acordo com Mokyr.

Enrico Spolaore resenha o livro neste working paper da NBER.

20.8.19

Queda "secular" da taxa de juros

Nas últimas semanas, se assistiu a mais uma rodada de redução de taxas de juros básicas mundo afora.

Vale a pena, nesse contexto, recordar as principais explicações para os níveis muito baixos de taxas de juros observados nas economias desenvolvidas, desde a crise financeira de 2008.

Como ensina o manual de macroeconomia, a taxa de juros real de longo prazo é determinada pela poupança, que corresponde à oferta de fundos de empréstimo, e pelo investimento, que corresponde à demanda por aqueles fundos. Assim, reduções da taxa de juros real de equilíbrio devem estar associadas a aumento da poupança e/ou redução do investimento.

As causas mais apontadas para o aumento da poupança, nas duas últimas décadas, são:

– aumento da expectativa de vida: vivendo mais tempo aposentadas e, assim, sem renda do trabalho, as pessoas necessitam poupar mais, para preservar seu padrão de consumo no período de aposentadoria.

– aumento da desigualdade na distribuição de renda: como a propensão a poupar dos ricos é maior do que a dos pobres, um aumento da concentração de renda leva a um aumento da taxa de poupança.

Os motivos mais mencionados para a redução do investimento são:

– crescimento da população e progresso técnico mais lentos: como o estoque de capital desejado pelas empresas é proporcional ao PIB, a redução da taxa de crescimento do PIB, que é determinada pela soma das taxas de crescimento da população e de progresso técnico, leva a uma redução da taxa de investimento.

– queda do custo do investimento, decorrente do aumento da participação de bens de informática, cujos preços se reduziram rapidamente, no investimento total.

– aumento da importância relativa do setor de tecnologia da informação, que é menos intensivo em capital físico e, portanto, demanda menos fundos para investimento, no investimento total.

Uma discussão dessas e outras questões relacionadas à queda da taxa de juros real de equilíbrio pode ser encontrada no e-book Secular Stagnation: facts, causes and cures, organizado por Coen Teulings e Richard Baldwin.


A par dos fatores listados acima, a demanda de investimento das empresas pode também estar sendo negativamente afetada, mais recentemente, pela "guerra comercial" promovida pelo governo Trump - não tanto pelo aumento das tarifas de importação, mas principalmente pelo caráter errático, imprevisível desta política e pelo consequente aumento da incerteza, conforme Paul Krugman explica aqui.

18.8.19

Como tributar os ricos

Natasha Sarin e Lawrence Summers, nestes links - Parte 1 e Parte 2 -, discutem três alternativas para aumentar a tributação incidente sobre as rendas muito elevadas:

(i) alargamento da base tributária, através do combate à evasão fiscal, eliminação de lacunas na legislação que permitem diminuição do imposto a pagar, redução de isenções e deduções para os ricos, tributação de ganhos de capital não realizados e ampliação do imposto sobre heranças

(ii) aumento da alíquota marginal do imposto de renda

(iii) criação de um imposto sobre a riqueza

14.8.19

Preços quânticos

O conceito de preços quânticos, derivado da análise de dados sobre preços de grandes empresas de varejo, conduzida pelos economistas do MIT Roberto Rigobon e Diego Aparicio, é discutido neste artigo de The Economist – edição de 10/08/2019.

O ponto de partida é a constatação de que firmas que vendem milhares de itens diferentes não os oferecem a milhares de preços diferentes, mas, em vez disso, tendem a agrupá-los em um número limitado de pontos de preços (a Uniqlo, por exemplo, vende 4.000 itens, distribuídos em menos de 20 preços).

Quando mudam o preço de um item, tais firmas, em lugar de mover o preço um pouco, tendem a realocar o item para uma das categorias pré-existentes de preços, ou seja, seus preços variam de maneira discreta, não contínua (daí a designação de “preços quânticos”).

Com frequência, quando as condições de mercado se modificam, estas firmas, em lugar de rever seus preços, (re)desenham seus produtos, de modo a adequá-los aos pontos de preço em que já se encontram. Se, por exemplo, os custos de produção sobem, em lugar de subir os preços, as firmas reduzem a qualidade, tamanho ou peso do produto.

Uma das implicações desse tipo de precificação é que uma queda da taxa de desemprego e o aumento de salários a ela associado afetam pouco os índices de inflação. Essa subestimação da inflação pode ser uma das possíveis explicações para o “achatamento” da curva de Phillips.

11.8.19

Riqueza Nacional

A renda e o bem estar dos residentes de um país dependem de sua riqueza, ou seja, da sua dotação de recursos produtivos.

Estimativas da riqueza nacional para 141 países estão disponíveis no relatório The Changing Wealth of Nations, publicado pelo Banco Mundial. 

Na definição do Banco Mundial, a riqueza nacional possui quatro componentes:

·         capital natural: óleo, gás natural e carvão; minerais; lavouras e pastagens; florestas; reservas naturais (áreas terrestres protegidas)

·         capital produzido: estruturas e edifícios; máquinas e equipamentos; terrenos urbanos residenciais e não residenciais

·         capital humano: conhecimento, experiência e esforço dos integrantes da força de trabalho

·         ativo externo líquido, que equivale à posição de investimento internacional do país


Capital Natural

O valor dos recursos que compõem o estoque de capital natural de um país é estimado como o valor presente do fluxo de renda esperado do recurso, com a renda sendo dada pela diferença entre o valor da produção e o custo dos insumos, incluídos neste custo a remuneração do trabalho e o retorno “normal” do capital.

O fluxo de renda esperado pode ser finito ou infinito, dependendo de o recurso ser exaurível ou renovável, e é obtido a partir da suposição de que a renda anual futura do recurso será igual à renda observada em anos recentes.

O valor presente deste fluxo de renda esperado é dado pela aplicação de uma taxa de desconto de 4% a.a., correspondente à taxa observada de retorno real de longo prazo (100 anos ou mais) dos ativos financeiros.

Capital Humano

O estoque de capital humano é calculado de forma similar, sendo dado pelo valor presente do fluxo esperado de rendas do trabalho, ao longo do tempo de vida da pessoa.

Supõe-se que a renda do trabalho aumenta a uma taxa constante de 2,5% a.a., devido ao aumento da produtividade, com o fluxo de renda esperado sendo, então, descontado à mesma taxa constante de 4% a.a., de modo que a taxa de desconto efetiva é de 1,5% a.a.

Capital Produzido

O valor do estoque de estruturas e edifícios e de máquinas e equipamentos é obtido pelo método do inventário perpétuo, enquanto o valor dos terrenos urbanos é estimado como uma proporção fixa, equivalente a 24%, do total do capital produzido.


Como mostra a tabela abaixo, o capital natural responde por uma parcela maior (20%) da riqueza nacional do Brasil, em comparação com os países de alta renda da OCDE (apenas 3%), com a participação do capital produzido (17%) e, em menor medida, também do capital humano (65%), em contrapartida, sendo mais reduzida no Brasil do que naqueles países.


                                       Riqueza por tipo de ativo - 2014 (% do total)

Tipo de ativo                             Mundo    Países de renda      Países de alta            Brasil
                                                                    média alta              renda da OCDE

Capital Natural                                9                  17                               3                         20
Capital Produzido                           27                 25                              28                        17
Capital Humano                              64                 58                             70                         65
Ativo Externo Líquido                      0                   0                               -1                         -2

Total                                              100               100                            100                      100

8.8.19

Senhoriagem



Senhoriagem é a diferença entre o valor de face de uma nota de real e o seu custo de produção. Corresponde, assim, ao lucro que o governo obtém com a emissão de moeda.

A figura acima mostra que o custo de produzir mil notas de 50 reais, com um valor de face total de R$ 50 mil, era de apenas R$ 62,75, em 2002, com a diferença constituindo lucro para o Banco Central e, portanto, receita para o governo.

Esta página traz informações sobre o custo de produção das notas e moedas de dólares americanos, em 2019. Assim, por exemplo, para produzir uma nota de 100 dólares, o custo incorrido pelo Federal Reserve é de apenas 14,02 centavos de dólar.

6.8.19

Atraso da renda per capita do Brasil

Uma maneira simples de avaliar o atraso de um país em termos de renda per capita é mostrar com que antecedência países desenvolvidos alcançaram o nível de renda corrente do país de interesse.

Dados da MPD 2018 indicam que a renda per capita do Brasil em 2015 equivalia à renda per capita dos Estados Unidos em 1950, ou seja, em relação aos Estados Unidos, o atraso brasileiro é de 65 anos.

O ano de 2015 foi escolhido para a comparação porque é o ano em que a renda per capita do Brasil alcança o valor mais elevado na série CGDPPC daquela base de dados, a suposição, neste caso, sendo que a queda da renda per capita brasileira ocorrida nos anos seguintes se deve a choques de natureza temporária, cujo efeito se dissipará completamente, no longo prazo.


PIB per capita do Brasil em 2015 era igual ao PIB per capita

      dos Estados Unidos em 1950/51

      da França em 1968/69

      da Alemanha em 1968/69

      do Reino Unido em 1969/70

      do Japão em 1972/73

      da Itália em 1975/76

      da Espanha em 1988/89

      de Portugal em 1992/93 

5.8.19

Como ensinar Introdução a Economia


De acordo com Justin Wolfers, mostrando para os estudantes que tanto a microeconomia como a macroeconomia proporcionam ferramentas de análise de grande valia para a tomada de decisões de natureza pessoal, profissional e patrimonial, ou seja, são úteis mesmo para quem não pretende seguir a carreira de economista.

Leia o artigo e assista o vídeo.

3.8.19

Dilemas da política monetária sob governos populistas


Raghuran Rajan explica, neste artigo, o conundrum (para cunhar uma expressão) enfrentado pelos Bancos Centrais sob governos populistas.

·         A incerteza gerada pelas ações heterodoxas e imprevisíveis de um governo populista tem um efeito deflacionário.

·         Como o mandato do Banco Central requer um afrouxamento da política monetária quando o crescimento desacelera, mesmo um Banco Central autônomo se torna efetivamente um seguidor do governo populista.

·         Isso, por sua vez, pode estimular o governo a adotar políticas ainda mais arriscadas, na suposição de que o Banco Central resgatará a economia, se necessário.

·         Como a capacidade do Banco Central de compensar erros de política é, na verdade, limitada, a situação da economia pode se tornar bastante problemática, com o BC sendo, então, acusado de não fazer o suficiente.

28.7.19

Uso de "big data" no desenho de políticas sociais


As dezoito aulas do curso “Using big data to solve economic and social problems”, lecionado por Raj Chetty, na Universidade Harvard, estão disponíveis em vídeo aqui. Examinando temas como igualdade de oportunidade, educação, saúde, meio ambiente e justiça criminal, entre outros, o curso proporciona uma introdução aos métodos estatísticos básicos e às técnicas de análise de dados utilizadas na pesquisa em economia.

Em artigo, publicado em The New York Times, Chetty argumenta que, com a crescente disponibilidade de dados e a aplicação dos métodos e técnicas discutidas no curso mencionado acima, a economia tem se tornado cada vez mais uma disciplina essencialmente empírica e científica.

27.7.19

Crescimento econômico no Brasil desde 1850

A versão mais recente das estatísticas históricas sobre PIB per capita publicadas pelo Projeto Maddison, a MPD 2018, propôs uma revisão bastante significativa das estimativas de renda relativa para a América Latina e o Brasil*, nos últimos 170 anos.

De acordo com a MPD 2018, o PIB per capita do Brasil, em 1850, já estava reduzido a apenas 21% do PIB per capita dos Estados Unidos. No último quarto do século XIX, a divergência entre as rendas brasileira e americana se acentuou, como mostra o gráfico acima, com a razão entre elas permanecendo quase sempre abaixo de 10% durante a primeira metade do século XX.

A partir de 1945, com a aceleração do crescimento econômico no Brasil, este hiato se reduziu - o PIB per capita brasileiro se elevou a cerca de 17% do americano no anos 70 e se manteve, com oscilações, próximo desse nível durante as “décadas perdidas”.

Durante a expansão Lula, entre 2004 e 2010, a razão entre as rendas per capita do Brasil e Estados Unidos chegou a 29%, vindo, entretanto, a se reduzir, no período mais recente, em consequência da recessão brasileira de 2014-16.

* A respeito das mudanças metodológicas que motivaram tal revisão, consultar esta postagem.



13.7.19

Crescimento do PIB per capita no Brasil

"Entre 1985 e 2018, nosso PIB per capita cresceu à taxa média de 0,9% ao ano. Nesse mesmo período, observou-se uma alta média de 3,4% a.a. no PIB per capita dos países em desenvolvimento, de 1,6% a.a. no dos países ricos e de 1,2% a.a. no da América Latina, excluindo o Brasil. Caminhamos para deixar de ser um país de renda média e voltar a ser um país pobre" (Armando Castelar Pinheiro, Valor - 05/0/2019).

"Achatamento" da curva de Phillips

Desde 2010, a taxa de inflação nos Estados Unidos, medida pelo deflator das despesas de consumo pessoal, se situou quase sempre abaixo da meta de 2%, estabelecida pelo Federal Reserve (FED), apesar da acentuada redução da taxa de desemprego, de 10%, em 2010, para menos de 4%, em 2019, conforme mostra o gráfico abaixo.


Robert Barro, em artigo publicado pelo Project Syndicate, considera difícil compreender como o FED conseguiu manter a taxa de inflação neste intervalo de 1% - 2%, na última década, apenas manejando a federal funds rate (a taxa de juros básica americana, análoga à SELIC brasileira), um instrumento que a evidência empírica sugere ser fraco e ter efeitos bastante retardados sobre a inflação.

Segundo Barro, a explicação mais frequente, embora não muito satisfatória, para este enigma é que os agentes econômicos acreditam que, se a inflação se elevar substancialmente acima do intervalo 1,5% - 2%, o FED reagirá elevando dramaticamente a taxa de juros nominal e, da mesma forma, cortará a taxa de juros nominal (ou usará políticas monetárias alternativas, se a taxa de juros nominal chegar ao seu piso de zero), também de forma agressiva, quando a inflação cair bem abaixo da meta. Esta ameaça crível de reações extremas por parte do FED a um desvio significativo da inflação em relação a sua meta seria o que tem mantido a inflação americana tão bem comportada.

Além da firme ancoragem das expectativas inflacionárias, decorrente da credibilidade do FED, outras explicações têm sido propostas para a notável estabilidade da inflação nos Estados Unidos, mesmo no atual contexto de taxa de desemprego muito baixa.

Neste artigo, de autoria de economistas da Brookings Institution, o "achatamento" da curva de Phillips é atribuído à globalização, que permite às empresas multinacionais reagir à redução do desemprego nos Estados Unidos transferindo sua produção para o exterior, em lugar de pagar salários mais altos; à redução do poder de barganha dos sindicatos de trabalhadores; ao desemprego oculto, refletido na ainda relativamente baixa taxa de participação na força de trabalho; e à expansão do comércio eletrônico, que aumentou a eficiência e a transparência de preços no setor de varejo, gerando preços mais baixos.

19.8.18

PIB per capita do Brasil - dados da PWT 9.0


De acordo com a mais nova versão (9.0) da PennWorld Table, o produto per capita do Brasil equivalia, em 2014, a 28,4% do produto per capita dos Estados Unidos [1].

O PIB per capita (Y/POP) de um país depende do PIB por trabalhador (Y/L) e da proporção da população total do país que está empregada (L/POP) [2].

O hiato entre os produtos per capita do Brasil e dos Estados Unidos, em 2014, é mais do que explicado pelo hiato no produto por trabalhador, que, no Brasil, é apenas 25,7% daquele verificado nos Estados Unidos.

Como a proporção da população empregada no Brasil (51,4%) era maior do que nos Estados Unidos (46,5%), em 2014, o hiato do PIB per capita era algo menor do que o hiato do PIB por trabalhador.

O produto por trabalhador é uma função do capital físico por trabalhador (k), do capital humano por trabalhador (h) e da eficiência com que estes recursos produtivos são utilizados, a chamada produtividade total dos fatores (A), ou seja, Y/L = A kα  h1-α, onde α é a elasticidade do produto em relação ao estoque de capital físico, equivalente, sob certas hipóteses, à participação do capital na renda.

A PWT 9.0 também traz informações sobre k e h, indicando que os valores de k e h no Brasil equivalem a 36% e 74%, respectivamente, dos valores observados nos Estados Unidos.  Supondo α=0,45, conforme estimado pela PWT 9.0, isso implica que a produtividade total dos fatores no Brasil corresponde a apenas 48% da americana.

Se fosse possível elevar a PTF brasileira ao nível americano, tudo o mais constante, o produto por trabalhador brasileiro duplicaria. Um aumento do capital físico por trabalhador do Brasil para o valor observado nos Estados Unidos, coeteris paribus, aumentaria o produto por trabalhador do Brasil em 59%, enquanto o mesmo efeito para um aumento do capital humano por trabalhador seria de 18%.

Depreende-se da análise acima que o hiato do produto por trabalhador entre Brasil e Estados Unidos é devido principalmente à baixa eficiência na utilização de recursos produtivos e à baixa relação capital/trabalho no Brasil.

[1] Para a análise conduzida nesta nota, fez-se uso da série do PIB designada como CGDPo, na PWT 9.0.

[2] Na PWT 9.0, a estimativa disponível para L corresponde ao total de pessoas engajadas na produção, definidas como todas as pessoas de 15 anos e mais que, durante a semana de referência, trabalharam, mesmo que apenas uma hora por semana, ou não estavam no trabalho, mas tinham um emprego ou negócio do qual se encontravam temporariamente ausentes.

13.7.18

Taxa de investimento e crescimento econômico


A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) em uma economia corresponde à soma do investimento de reposição (IR) e do investimento em ampliação da capacidade produtiva (investimento líquido – IL).

Supondo que as firmas sempre repõem integralmente o estoque de capital depreciado, a parcela do PIB (Y) destinada ao investimento de reposição (IR/Y) depende da taxa de depreciação do estoque de capital fixo (IR/K) e da relação capital-produto (K/Y). Esta conclusão é obtida quando se multiplica e divide IR/Y por K, que representa o estoque de capital fixo.

IR/Y = (IR/K) (K/Y) = taxa de depreciação do estoque de capital x relação capital produto

A taxa de depreciação corresponde ao inverso da vida média do estoque de capital. Assim, por exemplo, se um equipamento tem vida útil de 30 anos, sua taxa de depreciação anual será de 1/30 = 0,03333... ou de 3,3% ao ano.

Se, na economia sendo considerada, a relação capital produto é de 3, ou seja, se três unidades de capital são necessárias para se obter uma unidade de produto, o investimento de reposição corresponderá a 10% do PIB.

IR/Y = 0,033333... x 3 = 0,10

Obviamente, quanto menor a vida média do estoque de capital e maior a relação capital-produto, maior a parcela do PIB que a economia necessitará destinar ao investimento de reposição. Se, por exemplo, a vida média do estoque de capital for de apenas 25 anos e a relação capital-produto for 4, o investimento de reposição absorverá 16% do PIB.

Como mostra a tabela abaixo, com a vida média do estoque de capital fixo se situando entre 25 e 30 anos e a relação capital-produto entre 3 e 4, intervalos provavelmente realistas para o valor dessas variáveis, o investimento de reposição deve se situar entre 10% e 16% do PIB.


Relação capital-produto
Vida média do estoque de capital
3
4
30 anos
10,0
13,3
25 anos
12,0
16,0


Nos últimos dezoito anos, entre 2000 e 2017, o valor médio da Formação Bruta de Capital Fixo como proporção do PIB no Brasil foi de 18,4%.

Qual é a taxa de crescimento do PIB associada a este valor da taxa de investimento?

Para responder a esta pergunta, partimos da hipótese de que o PIB é diretamente proporcional ao estoque de capital, ou seja, que Y = AK, onde A é a relação produto-capital. Diferenciando totalmente esta equação, se obtém dY = A dK = A (IL). Dividindo os dois lados dessa expressão por Y, se obtém dY/Y = A (IL/Y), ou seja, a taxa de crescimento do PIB é dada pela taxa de investimento líquido multiplicada pela relação produto-capital.

Tomando-se, a partir da tabela, 10% do PIB como valor do investimento de reposição, o investimento em ampliação da capacidade produtiva (investimento líquido), neste século, se situou, em média, em 8,4% do PIB, no Brasil, o que implica que a taxa anual de crescimento do PIB, dada a propensão a investir do país, tende a ser de 2,8% (0,33 x 0,084 = 0,028).

A taxa média anual de crescimento do PIB observada, entre 2000 e 2017, foi de 2,6%, bastante próxima da taxa predita pelo modelo AK, sob as hipóteses aqui adotadas.

2.11.17

Crise financeira de 2008

Está disponível, na plataforma de cursos on line abertos Coursera, o curso The Global Financial Crisis, oferecido pela Universidade Yale e lecionado por Andrew Metrick e Timothy Geithner, este último ex-presidente do FED de Nova Iorque e ex-Secretário do Tesouro dos Estados Unidos. O curso proporciona uma análise bastante completa e minuciosa das causas, eventos e respostas da política econômica à crise financeira de 2008.

14.9.17

Aumento da produtividade do trabalho na indústria

As informações abaixo, publicadas por Mark Perry, do American Enterprise  Institute, em AEIdeas, oferecem alguma evidência para a explicação sobre a "estagnação secular" da produtividade do trabalho, reproduzida na postagem anterior.

  • Nos últimos 20 anos, a produção industrial nos Estados Unidos aumentou 40% em termos reais, enquanto o emprego industrial se reduziu em 29% (menos 5,1 milhões de trabalhadores empregados). 

  • Os Estados Unidos produzirão quatro vezes mais bens industriais neste ano, em comparação com 1940, com aproximadamente o mesmo número de empregos fabris.

  • O emprego na indústria como proporção do emprego total alcançou seu pico, nos Estados Unidos, em 1943 e tem declinado, desde então.

19.8.17

Estagnação secular (III)

A desaceleração do crescimento da produtividade do trabalho nos países desenvolvidos, na última década, foi ilustrada, nesta postagem, com dados para os Estados Unidos.

Timothy Lee postula, em artigo para Vox, que paradoxalmente estagnação da produtividade e rápido progresso tecnológico, na verdade, coexistiram, nesse período.

Seu argumento é que, quando a produtividade do trabalho se eleva em um setor da economia, a produção do setor pode se expandir ou se contrair. Inicialmente, ao baratear o produto, a inovação amplia o seu mercado, levando à expansão do setor que o fabrica. Com o passar do tempo, a demanda pelo produto é, em larga medida, satisfeita, de modo que aumentos subsequentes da produtividade que barateiam o produto levam principalmente a redução dos gastos com sua aquisição. O setor passa, então, a se contrair, no sentido de que passa a responder por uma parcela decrescente da renda e do emprego.

Isso é o que parece estar acontecendo no conjunto da indústria de transformação, em muitos países. O progresso técnico, neste setor, levou, no período mais recente, principalmente a melhoras de qualidade e redução do preço de produtos já existentes, com a introdução de novos produtos estando limitada quase só ao setor de informática (computadores pessoais, smartphones, DVD players, vídeo games etc.).

Com a redução decorrente da despesa com bens manufaturados, uma parcela crescente do orçamento das famílias passou a se dirigir para o setor de serviços pessoais (saúde, educação, alimentação fora do domicílio, entretenimento, cuidados com animais de estimação etc.), onde a produtividade do trabalho é baixa e se eleva lentamente, quando se eleva.

Essa mudança na estrutura da produção e do emprego na direção do setor de serviços pessoais explica a tendência à redução da taxa de crescimento da produtividade do trabalho.

Este é o paradoxo da produtividade – a redução da taxa de crescimento da produtividade agregada resulta do aumento da produtividade na indústria de transformação.

17.8.17

Distribuição geográfica da renda (PNB) mundial em 2016 - Regiões (fonte: Banco Mundial)


Regiões Renda per capita
     mundial = 100
Ásia Ocidental e Pacífico          106
Europa e Ásia Central          191
América Latina e Caribe            93
Oriente Médio e Norte da África          117
América do Norte          364
Sul da Ásia            38
África Subsaariana            22

16.8.17

Distribuição geográfica do PIB mundial em 2016 - Países (fonte: Banco Mundial)


País
% do PIB mundial
% da população mundial
PIB per
  capita do mundo=100
PIB per
  capita EUA=100
China       17,8        18,5           96           27
Estados Unidos       15,5          4,3         360         100
Índia         7,2        17,8           40           11
Japão         4,4         1,7         259           72
Alemanha         3,3         1,1         300           83
Rússia         2,8         1,9         147           41
Brasil         2,6         2,8          93           26
Indonésia         2,5         3,5          71          20
Reino Unido         2,3         0,9        255          71
França          2,3         0,9        255          71
Total       60,7       53,4        114          32

(Informações para o ano de 2018 podem ser obtidas aqui).

18.7.17

Contração fiscal expansionista

Uma redução do déficit do governo pode ter efeitos expansionistas sobre a produção e o emprego? A experiência recente da Grécia é frequentemente citada como evidência contrária a esta hipótese.

Andrés Velasco, em artigo publicado em Project Syndicate, argumenta, entretanto, que, no atual contexto brasileiro, uma contração fiscal pode ser expansionista, porque pode ser acompanhada por redução da taxa de juros real e desvalorização da taxa de câmbio real, o que, para a Grécia, devido à sua condição de membro da zona do euro, não era possível.  

22.6.17

Curva de Phillips

A taxa de desemprego variou acentuadamente nos Estados Unidos, na última década, enquanto a taxa de inflação se manteve praticamente estável. Em particular, a taxa de desemprego se reduziu de 10%, em 2009, para perto de 4%, em 2017, sem que elevação significativa fosse observada na taxa de inflação.

A relação inversa entre taxa de desemprego e taxa de inflação, postulada pela Curva de Phillips, parece, assim, ter se enfraquecido ou desaparecido.

A Curva de Phillips é dada por

π = πe α (U U*) + μ

onde

π = inflação corrente

πe = inflação esperada

U = taxa de desemprego corrente

U*= taxa de desemprego natural

μ = choque de oferta

A revista The Economist avalia, neste artigo, três possíveis explicações para o fato de a inflação não ter se elevado, à medida que a taxa de desemprego se reduziu, nos Estados Unidos, nos últimos anos:

  • variação da taxa de desemprego natural em consonância com a taxa de desemprego corrente
  • choques de oferta favoráveis 
  •  redução da inflação esperada